Por que não Carolina?

Uma blogueira chamada Gaby Moura publicou um texto criticando a mania das pessoas em idolatrar qualquer trabalho comercial feminista e também a sacralização de pessoas apontadas como símbolos no feminismo, ainda que não sejam feministas mas devido à uma mobilização que podem ter causado, empoderando mulheres não feministas a simpatizarem pela doutrina. Em outras palavras, ela alertou às pessoas a problematizarem mais e a transformar mulheres em ídolos intocáveis menos. Não é pra tanto que surgiu meia dúzia de pessoas atingidas com a postagem. Afinal, o ego e a carapuça servida gritam mais alto que qualquer outro valor nesse sistema capitalista onde o orgulho e a individualidade gritam mais que a humildade e a alteridade.

O engraçado é que um dia desses depois de ter lido Diário de Bitita e Quarto de despejo de Carolina Maria de Jesus, participei de um debate com Regina Dalcastagnè sobre a posição das feministas e do Movimento Negro sobre Carolina de Jesus. Ela é rejeitada por ambos apesar de toda a contribuição dada através de suas obras. E isso adivinha por que: ela tinha alguns posicionamentos conservadores a cerca de mulheres e negros e era uma das únicas a botar o dedo na ferida ao falar de temas que as pessoas de ambos os movimentos vivem evitando. De Jesus não tinha medo de problematizar, assumir preconceitos e desconstruí-los em seguida, muitas vezes em uma mesma página. Não, ela não queria inspirações em nome de uma esperança para mudar. Ela queria as próprias mudanças.

Não vejo problema algum em problematizar as ideias de De Jesus. Vejo problema em não aceitá-la como um símbolo de resistência por não ser um ícone comercial. Afinal de contas, Frida Kahlo é considerada símbolo feminista apesar do orgulho de um relacionamento abusivo com Diogo Rivera, abusador que, aliás, executava ações opostas às ideologias de Frida. Lembro-me que muitas criticavam considerar Nina Simone como ícone no feminismo por este motivo. Jout Jout é considerada símbolo feminista contemporânea, não importa se ela sempre diz que não levanta bandeira, pois não deseja a militância por gerar atritos e por ter desconhecimento da área; não importa se ela é colunista de uma revista que cria mais manuais de como uma mulher deve se comportar que qualquer outra coisa; não importa se ela passou a se afirmar feminista apenas quando viu que incentivar as mulheres a não tirarem o batom vermelho ou fazerem um escândalo ao serem assediadas(atitude louvável, aliás) trazia ainda mais dinheiro em troca de sua voz que jamais sairá da zona de conforto de próprias experiências que ela mesmo diz em bom alto destaque que pode acontecer com qualquer um, não só com mulheres, pressupondo que jamais vai botar o dedo na ferida pois vai contra seu posicionamento “good vibes” que as pessoas que a seguem se espelham por acharem-na cool. E quanto a Clarice Falcão e seu nascimento como a nova diva feminista(afinal, feminismo comercial trata-se de uma batalha de divas, não é mesmo?) com uma releitura que banaliza a sobrevivência de três mulheres negras americanas da preteridade de toda uma sociedade para com elas em uma forma indireta de dizer ao namoradinho – que juntamente a ela ganha dinheiro em cima de videos que tiram o lugar de fala e o protagonismo das minorias além de se preocuparem mais em tirar sarro por trás de um discurso falsamente inclusivo – que sobreviveu ao fim de seu namoro.

Essas meninas que atraem pessoas que estão mais interessados em segui-las por seus fofos estilos de vida, ou por produzirem obras onde a estética grita mais alto que a mensagem que se deseja passar são ídolos intocáveis, não pode problematizar! Agora uma negra, mãe solteira que catou lixo e foi empregada doméstica pelo seu sonho de ser escritora e sustentar seus filhos sozinha, expôs e denunciou familiares, amigos, vizinhança, patrões, políticos, autoridades e o caralho a quatro em troca de o mundo um dia poder saber das hipocrisias que a nossa “frágil sociedade” produz não pode sequer ser considerada uma representação. Já disse e vou repetir, não é problema problematizar De Jesus, deve mesmo ser problematizada, assim como Jout Jout, Clarice Falcão e Frida Kahlo. Como diz Gaby Moura, feminismo não é capa da Vogue pra decidir que a mais bonita ganha a capa. É uma ideologia muito séria pra ficarem transformando em religião onde as ideias são irrefutáveis e impassíveis de debate e as pessoas escolhidas como inspirações são sacros e a problematização em cima delas é considerado iconoclastia(que é crime na nossa cultura). Carolina Maria de Jesus me representa e ela é sim inspiração pras preta, pras mães solteiras, pras periféricas, pras mulheres que desejam emancipação de uma sistema que as prendem de todas as formas possíveis, seja socialmente, psicologicamente e até de individualmente onde diariamente somos incentivadas a lutarmos com nós mesmas por insistirem que apenas por existirmos estamos erradas e fadadas a servir aos outros e que jamais teremos nossa liberdade ou autoridade sobre nós mesmas. De Jesus representa aquela mulher que precisa do feminismo mais que qualquer outra, pois são esquecidas em meio a representações que jamais lhe dirão respeito. O feminismo fecha as portas ao “proibirem” representação a elas e só dá voz aquelas mocinhas que apesar de “básicas”(lê-se básicas as minas que não põem o dedo na ferida porque tem medo do conflito, e só falam das próprias experiências sempre ressaltando que também acontece com homens, ainda que seja em número quase de exclusividade feminina ou o alvo sejam mulheres devido ao patriarcado, pra que os machinhos não te “xinguem” de “feminista”e parem de te dar ibope) são bonitas e cool, e é isso que importa, né?!

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55 autores premiados em 55 anos de Brasília

livros mais

Por Marcos Linhares –

Em 2014, Brasília completou 54 anos, me desafiei e encontrei e publiquei no Blog do Linhares, a lista de 54 autores do Distrito Federal (vivos ou não) que já tenham recebido prêmios significativos do mundo literário, sem valor menções honrosas ou prêmios caça-níquel em que o sujeito paga para receber uma pseudo premiação. Deu trabalho já que tal pesquisa não havia sido feita e disponibilizada por alguém até então.Em 2015, consegui agregar mais um nome, chegando agora aos 55 premiados até agora. Creio é possível que mais escritores premiados do DF estejam fora da lista, se for o caso, deixe seu comentário com o nome do autor, o ano da premiação, o nome da premiação, a obra premiada, a entidade que concedeu o prêmio, e a editora (se for independente, especificar).

Divido com vocês e que possa, a partir de agora, auxiliar em consultas:

1- Anderson…

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