Sobre palmitagem

Palmiteiro é homem hétero cis negro que se diz militante do movimento negro mas pretere a mulher negra. E quando eu digo pretere, não é apenas no sentido afetivo, mas trata da questão da mulher negra e a mulher negra como o resto da sociedade trata, passando a frente e legitimando estigmas nojentos que têm sobre nós. E as mesmas máscaras adotadas como “amor não tem cor”, “já comi uma mulata”, “aconteceu”, “é questão de gosto”, “não me quiseram e as que me quiseram eram ‘feias'(lembrando que a noção de belo é eurocentrada)”, e tudo pra dizer que namorou negras mas a pessoa certa(a pra casar) é sempre branca, basta ter a oportunidade. Em outras palavras, palmiteiro é um bosta que só pauta questões relativas ao próprio umbigo. Quase sempre são machistas e ignoram pautas que levam em consideração todo o movimento(discussão da falsa democracia racial; mito da miscigenação; “barriga limpa”, mulher branca como status social e outras armadilhas racistas; proibição da imigração africana até os anos 80 em prol da limpeza racial; embranquecimento e o homicídio em massa pelo abandono que persiste; colorismo; solidão da mulher negra; apropriação cultural, valorização de símbolos como identidade; desconstrução da representação do negro; a importância do relacionamento afrocentrado e outras muitas) legitimando o egoísmo capitalista onde ele vem em primeiro lugar, mesmo que pessoas tenham escolhido morrer para que ele e seus “irmãos”estejam aqui.

O movimento negro não taí só pra discutir dívida histórica pra que você tenha direito a cotas. Seja politizado que você fortalece o movimento que te representa e entende que a sociedade só muda se representarmos um todo. Desculpa, mas não existe só você, vá se desconstruir primeiro para se empoderar. Quando a irmã negra falar, ouça e dê o lugar de fala dela. Já não basta a sociedade inteira querendo nos silenciar. Resumir palmitagem à interracialidade e Solidão da mulher negra à solteirice é desonesto e ignorante. Maquiar a sua reprodução de racismo se defendendo com os mesmos argumentos que mulheres contra o feminismo usam é ridículo. O sistema é racista, assuma seus preconceitos, desconstrua-o e se empodere invés de tentar arranjar um culpados e depois silencia-los quando eles vão se defender. É fácil montar na mulher negra, porque o sistema inteiro faz isso, você se aproveitar do fato só te torna repugnante.

Tem gente branca que entende esse texto melhor do que vocês, então please, reflita antes de coitadizar tudo afirmando que “suas experiências foram assim ou assado”, mais uma vez se colocando como centro esquecendo que existe um sistema inteiro pautado nisso com dados histórico-sociológico que comprovam, basta ter bom senso e googlar. Resumir palmitagem à interracialidade e a Solidão da mulher negra à “solteirice” só prova que você não entendeu nada, ou não quer entender. Escute o que a mulher negra tem a dizer e seja feliz. Dica de blog: Blogueirasnegras e Geledés instituto da mulher negra.

Quando chorar, vá chorar pros neonazistas que têm empatia por você, olha:

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Não se esqueça de usar a tag “#EuNãoMereçoMulherNegra” que eu sei que tu tá loko pra usar. Passar bem.

Amo não tem cor?

Sete atitudes desmascaradoras que racistas cometem para se “defender” da acusação de racismo

1 – Token: “tenho amigos, parentes, empregadas, até sapatos negros! Não sou racista!”

2 – Afroconveniência: “Eu também sou negro”, é lido como branco, se declara “branco” ou “mestiço”, ou qualquer outro termo embranquecedor, mas para “ter voz” ao amenizar alguma situação assume suas “raízes”, seja pai ou mãe ou aquela bisavó que tá lá longe. Ainda que seja negro, na nossa cultura de agregados que aplaudem a miscigenação que embranquece sua cor não te impede de reproduzir opressão.

3 – “Agora tudo é racismo! Foi só brincadeira.”: dizer que sua atitude foi apenas uma brincadeira, que não tinha intenção de magoar ninguém, insiste para que os ofendidos “não levem tudo a sério”.

4 – “Mas eu adoro cultura afro!”: diz que gosta tanto da cultura afro, que ama samba, que gosta de capoeira e devido a isso é praticamente negro por consumir e apropriar-se da pele negra.

5 – “Eu trabalho, ralo muito na vida, sou uma pessoa boa, um filho que não dá trabalho, um ser humano incrível”: propaga a ideia de que racista é somente aquele cara mal que bate na empregada e diz “sua negrinha imunda”. Só que não! Não existe essa de que você tem que ser uma pessoa ruim pra ser racista, você é racista a partir do momento que você contribui com um padrão ideológico de hierarquia racial, ou seja, é hegemônico e mesmo com uma onda de pessoas que vão contra, ou você se cala ou se expressa em favor do opressor.

6 – “Você tá sendo racista com você mesmo.”: jogar a culpa no oprimido ao apontar racismo, dizer que você faz isso porque todo mundo faz, logo você tá sendo racista por direito é muito muito errado, cuidado.

7 – “Racista é quem me chama de branquelo”: se colocar em posição de vítima e mostrar ignorância quanto ao assunto só deixa a atitude racista visível.

Analisando os discursos de Caique Gama na revista Atrevida

Resumindo a história, Atrevida é uma revista teen voltada para o público feminino nos mesmos moldes que a Cosmopolitan ou a Marie Claire. Isto é, dita como uma mulher perfeita tem que ser, porque mulheres precisam ser perfeitas, ou passar a vida inteira lutando para chegar a perfeição. A Atrevida em seu papel educando princesinhas desde novas não perde tempo em chamar meninos que essas meninas possuem admiração para dizer do que eles gostam em uma mulher. Seguindo uma lista de perguntas bizarras, as respostas seguidas são ainda piores. Apesar de todos os meninos expressarem poses extremamente machistas, apenas Caique Gama chamou atenção de todos por ter expressado uma opinião racista. Quando a pergunta tratou-se de “tranças” – seja lá qual foi o motivo da revista questionar sobre isso – Caique Gama disse que as vezes tranças são a única salvação para “cabelo ruim” e a revista fez questão de destacar que todos riram.

15278207-original Após a edição sair nas bancas, fãs negras e feministas se revoltaram com o conteúdo da revista, tornando-se assunto em todas as mídias sociais em que esses meninos estavam cadastrados. Daí, não perdendo tempo de ser imbecil, o senhor Caique Gama com uma postura extremamente humilde respondeu da seguinte forma:

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Sua primeira reação foi se defender insinuando que havia pessoas negras na sua família, ou ciclo de amizade quando disse “não sabe nada sobre minha vida, sobre meus amigos” e que não foi racismo, mas tudo uma brincadeirinha com  “se ofendeu alguém, falei em tom de brincadeira”. Como podem ver, na mesma postagem volta a utilizar o termo “cabelo ruim” e a expressão “nego” para se referir as pessoas de quem ele está se defendendo.

No mesmo dia, Caique Gama solta a seguinte pérola:

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Não vou comentar o “transa” nem o “ficar procurar”, mas vê-se que não satisfeito em dizer que existem negros em seu ciclo afetivo e que tudo não passou de uma brincadeira, manda os negros se silenciarem diante de seu racismo e põe a culpa do racismo em quem sofreu ele. E que também, acha lindo adornos negros como trança e blackpower, se tivesse usaria de tanto que ele acha lindo. Nossa! O menino agora aprecia a cultura negra, e usa isso para se defender. Ele gosta de adorno negros, é quase negro, gente! Só nesse discurso ele utilizou quase todos os argumentos que racistas usam pra se dizerem não racistas, falta apenas um que ele vai usar na próxima postagem, porque ele não achou necessário cagar um pouquinho, tem que ser em vasta escala.

Antes de fazer o segundo e “discurso final”, segundo ele, a Atrevida para tirar o próprio cu da reta disse que o cabelo ruim referido pelo Caique Gama foi tirado de contexto, que eles estavam falando sobre cabelo bagunçado, ainda que o Caique já tenha falado sobre o cabelo crespo e adornos negros e chamado ele de cabelo ruim pela segunda vez. A Atrevida tentando consertar apagou o fato de tranças serem um penteado afro e de a nossa cultura se referenciar a “cabelo ruim” cabelos crespos. Em outras palavras, a Atrevida tentou tirar o cu da reta, mas só piorou a situação dela, porque o mocinho já tinha falado sobre isso.

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Como ele é burro, foi na onda e se passou por idiota… Mais uma vez!

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Sim, Caique Gama concluiu o ciclo de argumentos que pessoas racistas usam pra se defender. Se colocar em posição de vítima. “A gente batalha durante anos pra conquistas algumas coisas”, “RACISTA(em cacha alta) é me chamar de branquelo”, sim, eu sou muito trabalhador, muito bonzinho para ser racista! Afinal, só quem é racista são pessoas más, não é? Pessoas que são boas não podem ser racistas. Só que não! Uma coisa tá longe de excluir a outra, só cai nesse teatrinho quem quer! Não me impressionará se ele ao dar entrevista para programas de TV falar que ele foi racista porque o sistema é racista, logo ele é racista por direito. Veja que nesse segundo discurso ele cita “tweets antigos” que estão usando contra ele. As pessoas investigando o twitter e o instagram dele, encontrou coisas tensas que ele disse já enquadrado na fama. Não só racistas, mas transfóbicas, homofóbicas, classistas e extremamente misóginas. Em um dos tweets ele diz que manda a empregada dele tomar no cu e mostrou graça ao dizer que sua mãe quase bate na empregada. Ele ficou com tanto medo dessas bosta que ele falou dar merda que desativou o twitter e o instagram.

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E pra piorar a situação dele, os amiguinhos traíras também tiraram o cu deles da reta, apesar de também terem defecado até bastante na revista, mas o pessoal não tá dando atenção já que o único que cagou forte foi o Caique. Não sei se foi o que disse que mulher de boné só se for frentista ou o que disse que mulher não pode botar foto de biquíni porque mulher tem que se comporta, mas um deles disse que Caique errou e que eles conversaram sobre isso(apesar de terem rido da piada).  Daí uma menina postou um depoimento na page oficial do Caique Gama e adivinha, ele apagou! Quem não deve não teme.

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Mas é claro que ele não poderia parar por aí, não é? Tinha que ter dado RT em tags do tipo “Estamos com você caique gama” onde seus fãs branquinhos e negros agregados compartilham fotos dele com negros. Sim, ele não é racista porque tokeniza fãs negros, uai. Sem contar que ele é chamado de branquelo azedo, sofre mais racismo do que todos vocês, cabelos ruins.

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Sobre Porta dos Fundos e seus vídeos sobre “racismo”

O único debate sobre racismo que vejo em todos os vídeos que tentam abordar o tema no Porta dos Fundos é debate de branco com branco. É branco falando pra branco que gente preta é gente, como se precisasse de um branco para dizer se a luta contra o racismo é válida ou não, como se só quando um branco fala sobre o assunto que ele é escutado. A representação do negro no Porta dos Fundos é sempre a mesma. Tem um ator negro no porta dos fundos que só faz papel de preto apontado como bandido inocente(ainda que de crítica) ou “capitão do mato”, ou que só aparece em vídeos que falam sobre racismo, e claro, em segundo plano, o branco que é o protagonista sempre. Eles se acham desconstruidores, mas só mostram o negro “no lugarzinho dele”, e sem voz, claro, porque o negro não pode falar por ele, tem que ser do negro como coitadinho com um branco gentil falando por ele. Sem contar os videos transfóbicos que são mantidos porque tem “um grande número de visualização”. Gregorio Duvivier é só mais um esquerdista cis branco que acha fofo falar sobre minorias, mas não dar o lugar de fala delas, porque elas não podem falar por elas mesmas, tem que ser um cis branco gentil a fazer isso.
Pois é, tem um negro no porta, mas quando os vídeos são sobre racismo ele nunca protagoniza, é sempre um branco falando por ele. Engraçado, não? Pra mim o PDF é só um grupo de hipsters cis brancos que tentam fazer humor sagaz mostrando o quanto são legais por falar por minorias, mas só tentam mesmo.
Esse “humor” não tem absolutamente nada de transformador. Muito pelo contrário, é mais do mesmo. Para pessoas, como eu, pretas, que vivenciaram a triste realidade de ser o único preto dentro de uma escola de brancos ricos, sendo humilhado, hostilizado, objetificado, esse vídeo nada mais é do que um acionador de vários gatilhos da época humilhante pela qual passamos. E tenham a certeza que ele acaba sendo uma verdadeira abominação na mente dos pretos que passaram e passam por esse tipo de experiência. Um vídeo que transforma o preto em uma moeda de troca não deveria nem ser produzido, quanto mais exibido. Pergunto: algum preto foi chamado para avaliar esse roteiro?! Ou foi feito a partir do ponto de vista de pessoas brancas?! Como sempre, por acaso. Porque quem o fez tenta ser “parceiro de luta” na causa racial sem perceber que tudo que é narrado foi observado do ponto de vista de quem nós já conhecemos, ou seja, do ponto de vista dos brancos. Brancos normalmente tentam falar das nossas mazelas sob a ótica do colonizador, de quem possui a última palavra, a do evangelizador que acha que sabe como nos sentimos. Os pretos sempre são vistos como o objeto de análise, sempre são os estudados. E estudados por quem?! Por brancos. Então, antes de me dizerem que esse vídeo é um “baita de um apoio” para a causa preta, que cola no Movimento Negro, tentem pensar como uma pessoa preta e não como pessoas brancas dando uma de bwanas que estão ali estudando os macaquinhos da floresta africana.

Quer um debate sobre racismo no ponto de vista de quem sofre, não do colonizador/observador? Vejam negros falando sobre racismo através de enquetes de forma bem humorada

Pela página Negro Negus

“1 – Porta dos Fundos devia se olhar no espelho antes de querer falar sobre racismo> o único ator negro que tem ali só faz papel de escravo, ou de bandido, ou de policial terceirizado, ou plano de fundo.

Porque se vocês querem falar de negro ocupando os espaços, pelo menos tentem não soar hipócritas.

2 – Isso é praticamente um Gregório Duvivier 2.0> o Porchat, cisbranco, escreve um roteiro pra falar de algo que ele não vive, e que a comunidade negra vive falando, e é aplaudido.

Quando nós, povo negro, falamos dessa mesma coisa, de uma forma muito mais verdadeira, embasada, coerente e realista, sem fazer piada, nós somos um bando de vitimista.

3 – O deputado Jean Wyllys entrou na onda e tá hypando o vídeo > o deputado não vê problema nenhum em se posicionar contra mulheres negras que denunciaram racismo em um programa que ele, como bom freguês da globo que é, gostava.

Mas quando um branco fala de racismo, o deputado baba nas bolas.

4 – Não teve graça.

Mas obrigado, brancos, por mostrarem mais uma vez como racismo é uma coisinha bem perfeita: vocês criaram esse sistema e fizeram o combate a ele só ser válido se for feito por vocês mesmo.

Os oprimidos vitimistas que se fodam.”

Livros infantis com a falsa ideia de empoderamento

Com a diversidade como pauta de discussões em escolas, é natural que professores recorram à literatura infantil para iniciar ou complementar debates acerca do assunto. Todavia, selecionar a obra e analisá-la antes de compartilhar é importante. Não digo que crianças necessitam de um mediador para ditar o que ela deve ler ou não, mas é fundamental ler o livro antes e questioná-lo, solitariamente ou em rodas de discussões.
Existem livros infantis que são usados por adultos paratentar passar uma mensagem  e acabam passando outras, que até contradizem a suposta “quebra de paradigmas” que o adulto quer discutir com as crianças. Quantos mediadores já não procuraram obras partindo de temas específicos que queriam trabalhar, viram que eram acessíveis, mas, ao ler a obra, que decepção… Que atire a primeira pedra quem nunca fez isso…Claro que a própria instrumentalização da obra infantil e sua escolha pelo “tema”  é bastante questionável, mas isso fica para uma próxima postagem.Por enquanto, quero discutir o que já acontece: certas obras são recomendadas como instrumentos para quebrar preconceitos e dar voz a grupos discriminados, mas a escolha nem sempre é criteriosa.
Minha intenção nessa resenha é apenas dar a minha opinião sobre duas obras famosas sempre citadas para abordar a diversidade, mas de que eu não gosto tanto, porque acho que têm muitas falhas para cumprir esse objetivo. Para quem utiliza os livros em parte com esse tipo se propósito, é importante que possa questionar se a obra é a melhor escolha e se ela ajuda de fato a flexibilizar os pontos de vista das crianças e a quebrar preconceitos.

Menina bonita do laço de fita

Um clássico de Ana Maria Machado. Quase sempre que procuro livros sobre etnia, essa obra está na lista. 


Resumindo o livro: O protagonista é um coelho branco que observa uma menina negra e passa o livro inteiro perguntando pra ela como ela faz pra ser preta, ovacionando o quanto ela é bonita por este fato.

Se vamos debater sobre protagonismo e usar este livro específico para criar empoderamento, para mim, o negro vir em segundo plano já é um problema. O protagonista não é a menina, que aliás, nem tem nome. Ela, na história, é a menina de pele escura, não tem voz, ela só fala quando o coelho branco “dá permissão” por meio de suas perguntas.

O papel da menina negra é apenas ser o objeto de admiração do coelho, sendo até sensualizada em uma imagem:


Na história não acontece nada, é apenas diálogo pronto de “menina, o que faz pra ser pretinha?” e a menina fala qualquer coisa ligada à cor preta. Aliás, vale um “close” no “”blackface” do coelho…


Quando a menina diz que talvez sua pele seja preta porque comia muita jabuticaba, o narrador conta que o coelho não ficou preto, mas o seu cocô, sim. Uma conexão totalmente desnecessária e que obviamente não faz nada para recomendar o livro em termos de empoderamento e autoestima…


A obra reproduz uma abordagem forçada e preconceituosa de etnia,  insinuando que ser negro é ser exótico e, para ser legal, tem que ter um branco afirmando que é (me poupem de dizer que, por ser um coelho, está tudo ok). Esse aspecto se concretiza com o uso do termo “mulata” para designar a mãe da menina pretinha (se isso não era considerado inadequadonos anos 70, quando o livro foi escrito, isso justifica usá-lo hoje como escolha para empoderar crianças negras?) Aliás, a mãe não fala em primeira pessoa, mas é narrada: para ser preto tem que ter preto na família. O coelho então casa com uma coelha preta pra ter filhos de “todas as cores”. Conclusão: ser negro é algo exótico, o papel da negra é ser objeto de sensualidade e uma encubadora. A hiper-sexualização da mulher negra e a exotização do negro para torna-lo “positivo” são problemas que o movimento afro tenta combater. Como uma obra que naturaliza esses preconceitos pode ser usada para debater o racismo? Eu, particularmente, por todas essas razões e outras mais, detesto esse livro. Não sei se as pessoas que o indicam em blogs afros já o leram, sinceramente.

Lado bom: é um dos pouquíssimos livros, na época em que foi publicado e, infelizmente, até hoje,  em que uma das personagens principais é uma menina negra, e apesar de exaltar a sua beleza através da voz de um (coelho) branco, sua beleza é o destaque. Já que representatividade é fundamental, e ela se encontra bastante escassa nesse contexto, a obra tem sua importância, sobretudo uma importância histórica. Precisamos pensar em opções contemporâneas mais afinadas com um compromisso com a representatividade genuína das crianças negras na literatura.


Até as princesas soltam pum

Ao contrário do livro acima, esta obra,de Ilan Brenman, eu não detesto, mas também acho que aqueles que recomendam a obra para empoderar meninas deram, no mínimo, pouca atenção ao conteúdo do livro, pois a história acaba reforçando estereótipos, embora pareça inicialmente subvertê-los. Conhecendo um pouco sobre o autor e sua visão de literatura infantil, suponho que, talvez, ele não se identifique com compromisso algum de empoderar meninas nem de levar a uma reflexão feminista, mas apenas de entreter, brincar e fazer rir, sem pretensão de crítica a valores vigentes. No entanto, o fato de o autor não concordar que a literatura infantil deva servir a propósitos externos nem ser julgada por critérios como esses não impede que o livro seja amplamente vendido como interessante para quebrar paradigmas. Prova disso é a recomendação da obra em listas do tipo “livros que toda menina deve ler”. O livro constuma ser citado como especialmente bom para quebrar idéias fixas sobre como meninas devem se comportar… nesse caso, me pergunto por que essas listas não recomendam presentear o livro a meninos também!!). Considerando tudo isso, farei minhas considerações acerca do potencial desta obra para realmente ajudar a quebrar paradigmas. 

Resumo: uma menina chega em casa aflita perguntando ao pai se era possível uma princesa soltar pum. E ele, em sua sabedoria, mostra a ela um livro secreto das princesas que ele guardava mostrando que sim, mas tudo com extrema cautela.

O problema que o livro aborda, com muito humor mas pouca subversão, é o lugar da escatologia no “universo feminino”. Desde crianças, meninas são “ensinadas” que verdadeiras damas precisam esconder ao máximo o fato de também fazerem necessidades fisiológicas, e quanto mais livres disso, mais perfeitas. A princesa é o símbolo de perfeição, logo, como ela iria soltar pum? Por meio do humor, essa questão é discutida a partir de diversos ângulos. No entanto, eu esperava que, de forma leve, o livro contribuísse para dar um basta nessa ideia de que ladies não fazem cocô e devem ter vergonha disso e guardar segredo. Mas não. Quando chegamos ao “livro secreto das princesas” vemos que elas soltavam pum sim, mas eram tão “sortudas” que os momentos em que cometeram esse pecado não foram registrados ou descobertos por seus príncipes, com entusiasmos da menina protagonista de “essa foi por pouco!!!” ao ouvir seu sábio pai confessando as heresias das ladies impostoras. E no fim, ainda reforçam com “Princesas soltam pum, sim, mas mantenham o segredo”.

Não preciso nem citar que o fato de ser um homem a guiar o conhecimento da menina acerca do “universo feminino” me irritou. Mas o que mais me irritou, na verdade, foi a decepção. Me animei, por ser comédia, mas chorei, por só reforçarem novamente que a mulher, sempre muito mais que o homem, precisa se envergonhar de suas funções corporais. Todas as princesas soltam pum, mas ó: segredo!

Autoria: Amanda Barros e Eileen Flores.
Revisão: Eileen Flores
Foi publicado no livros abertos