Gordura, melanina, pelos, meu corpo – Memorial

Um dia desses recebi um comentário aqui no blog de uma pessoa que nem conheço agradecendo a postagem sobre mulheres que são fetichizadas por serem feias, dizendo o quanto ela tinha gostado do conteúdo, se identificado, ela chegou a me presentear com parte da história de vida dela. Relendo a postagem e o comentário eu pensei “Poxa, legal ter atingido pessoas que nem conheço com um assunto importante chegando ao ponto de ter feito alguém se sentir bem. Mas será que passei uma imagem que eu não queria passar?” Isto é, será que em algum momento pessoas que lerem minhas postagens sobre empoderamento vão achar que sempre pensei assim e que sou super bem resolvida nas minorias em que me encaixo? Não estou dizendo que essa menina em específico pensou assim, mas depois que ela me contou um pouco da história dela na review, comparei nas minhas postagens que eu não tenho o hábito de me expor, isto é, quando escrevo não coloco minha situação(exceto se a postagem for sobre câncer), sempre vou direto a conclusão que tive, nunca a forma que cheguei a ela.

Pois bem, aqui não pretendo escrachar na cara das pessoas o quanto sou feliz sendo quem sou, apesar de eu ser. Mas, pra que eu conseguisse chegar a esse resultado foi dose, e infelizmente eu ainda prefiro me isolar ou evitar falar sobre isso, porque sei que a ferida ainda dói, e sempre vai doer. Contudo, acho que posso contribuir com o que eu falar, principalmente com meninas mais novas que passam pelo que eu passei e passo, e a cada dia se isolam mais por medo das feridas que o social causa sem dó.

Eu, como toda adolescente, era insatisfeita com a minha aparência. A mídia coloca na nossa cabeça que temos que seguir um padrão que nem os modelos que eles impõem seguem(sabe as moças das revistas? nem elas são daquele jeito, apagam com o photoshop coisas normais no corpo das mulheres para que elas repudiem a própria natureza). Eles fazem isso para que consumamos produtos que além de não precisarmos, são nocivos para nós. É muito fofo professores falarem do extremismo de culturas citando pés de chinesas, argolas nos pescoço, cicatrizes nas costas e nos seios. Mas que tal injetar uma das substâncias mais tóxicas para o corpo humano como o veneno de arraia no rosto? Ou óleo de carro em uma parte tão sensível quanto o seio? Hidrogel na coxa para que um dia ela apodreça e precise amputar? Ou puxar os ossos com ferro para que sigam uma linha imaginária? Aplicar laser cancerígeno para deixar a pele mais escura, ou mercúrio(também cancerígeno) para sua pele ficar mais clara? Queimar a pele para tirar pelos ou manchas inofensivas? Passar ferro quente, formol e amônia no cabelo? Sugar a gordura, cortar a pele, reduzir seio se considerarem muito grande ou aumentar se considerarem muito pequeno? Acabei de citar poucas de muitas loucuras que fazemos e achamos normais, tudo para seguir o que uma empresa diz que é o “certo” ou o “belo” só pra que a gente torne seu proprietário mais rico. Botox, silicone, bronzeamento, depilação com cera, clareamento de pele e mais um bando de bosta que acharmos natural, ou que acreditamos que precisamos daquilo porque coisas naturais no corpo feminino como celulite, estria, rugas, pelos e gordura são um horror, ainda que perfeitamente normais. Pensamos que somos livres para escolher e mandar nos nossos desejos, mas na verdade somos manipulados o tempo inteiro, a prova disso é quando sentimos uma profunda dor ou revolta quando criticam coisas que fazemos, ainda que não seja sobre nossas pessoas, mas a um sistema que fazemos parte e nunca nos questionamos o porquê, e sempre usamos como desculpa “porque eu gosto”. Se gosta, ótimo. Essa postagem não é pra você, essa postagem é pra quem tenta seguir esses padrões, não sabe o porquê e está farta de tentá-lo. A falsa noção de liberdade começa quando somos livres para seguir padrões, mas não para questioná-los ou ir contra eles.

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Botox, ou veneno de arraia, é uma das substâncias químicas mais tóxicas que o corpo humano pode entrar em contato. Em troco de que?

Como eu disse, estou longe de ser uma pessoa bem resolvida, se eu disser que críticas não me machucam seria uma boa de uma mentira, ou que construí minha autoestima completamente sozinha, ou que não busco heróis para me representar. O faço todos os dias, e se eu não fizesse já estaria morta.

Sempre fui gorda. Desde bebê adoro comer, comia de tudo(o que na verdade me fez uma criança muito saudável). Enquanto minha irmã sofria de todos os tipos de doenças de pele ligados a alergia e imunidade baixa, meu irmão com ataques de bronquite e asma, nunca tive nenhum problema de saúde. Eu corria, dançava, pulava, não parava quieta. Era uma criança hiperativa. Sim, gordos hiperativos existem, se você construiu uma imagem única de gordos, é hora de parar. Em outras palavras, fui uma criança normal, que fazia coisas de crianças que não tinham videogame e brincavam na rua. Tapa na cara saber que a única criança saudável da família era obesa(o jogo virou, não é mesmo, viados!).

Daí a família do meu pai era gorda, mas não nasceram gordos, então ficavam sempre me enchendo o saco falando que eu tinha que emagrecer pra ser saudável, mesmo que eu fosse e eles não. Diziam que eu poderia ficar doente, mesmo que fosse condição de qualquer ser humano. Na escola acreditavam que eu provavelmente era preguiçosa e que nem sabia correr, mesmo que nunca tivessem me visto correr, ou sequer visto fora da escola. Subentendiam que eu amava fast food, ainda que eu odiasse(odeio até hoje) Mc donalds(se comi lá foi pela casquinha ou brinquedo). Quando um magro repetia a comida, foda-se, mas se a gorda repetia vinham risadas, reprovações, um alvoroço tudo porque eu repeti a comida, mesmo que todos tenham feito o mesmo. Na capoeira ou no juudo, todos tinham apelidos ligados a habilidades, o meu era ligado ao físico. As pessoas não viam nada além da minha obesidade.

Sempre fiz muito esporte porque gostava de me mexer, e também era algo muito indicado pela minha família que sempre tiveram a obsessão de me emagrecer. Acreditei sempre que exercício era algo que se fazia para ficar saudável, mas sempre que falava prum magro fazer exercício ele dizia “pra que? eu tô magro”. Então vi que as pessoas tavam pouco se fodendo pra minha saúde, elas queriam que eu emagrecesse porque eu era gorda. Ponto final. E apenas na minha adolescência encasquetei na cabeça que tinha que emagrecer porque eu era gorda, ainda que ficasse doente para conquistar isso.

Chouchou akimichi da série Naruto Gaiden logo em sua estréia já foi alvo de comentário racista por parte dos fãs brasileiros, e piadas gordofóbicas pelo próprio autor. Chouchou Akimichi ainda que vinda não só de um clã foda, mas de uma linhagem sanguínea forte(ele é descendente do Raikage, mais respeito, por favor) foi abordada como nada mais nada menos que a gorda do grupo. E, segundo os brasileiros, pior, é uma gorda preta(ainda que seu pai seja gordo e sua mãe preta, nada mais original que juntar os dois). Piada de gordo rolando é tão cansativa quanto

Chouchou akimichi da série Naruto Gaiden logo em sua estréia já foi alvo de comentário racista por parte dos fãs brasileiros, e piadas gordofóbicas pelo próprio autor. Chouchou Akimichi ainda que vinda não só de um clã foda, mas de uma linhagem sanguínea forte(ele é descendente do Raikage, mais respeito, por favor) foi abordada como nada mais nada menos que a gorda do grupo. E, segundo os brasileiros, pior, é uma gorda preta(ainda que seu pai seja gordo e sua mãe preta, nada mais original que juntar os dois). Piada de gordo rolando é tão cansativa quanto “japa abre o olho”, fica a dica.

Percebam que na infância isso já me feria, mas eu sempre dava um jeito de esquecer. Foram anos acumulando o “deixa pra lá”, eu poderia provar pra eles que corria mais que os que diziam que eu provavelmente não corria nada, poderia fazer um esporte com eles e ostentar habilidades superiores que nada mais era visto que minha obesidade. O gordo nunca se destaca por ser o melhor, ninguém liga se ele é bom, mas se ele é ruim todos o notam. Ser gordo é um problema não porque seja nocivo, mas porque é “feio”. Assim como ser negro. Negro gordo então, puta que pariu. Meu caso.

Já fiz um memorial acerca do meu cabelo( Amanda amada), um dia falo mais detalhadamente sobre minha infância enquanto criança negra mais detalhadamente.

Parei de usar tranças ou o cabelo molhado pingando creme(porque cabelo crespo solto, amarrado, se não for pingando creme é bagunçado pros racistas) quando estava na segunda série porque não suportei o bullying. Mas com a gordura, suportei porque não tinha como, fiz todos os tipos de dietas, fazia exercício todo dia e não emagrecia nem com reza braba. E isso foi até eu começar a realmente achar problemático ser gorda e querer parar de frequentar a escola, porque era um “problema” que eu não podia mudar, e as pessoas insistiam que podia sim, e que tinha, e agora!

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Essa mulher diz que gordofobia é saudável, porque ofendendo os gordos ela os ajuda a emagrecer. Então eu sou gorda porque sofri pouco bullying? Meninas se matam por não conseguirem emagrecer atoa, era só ter pedido ainda mais bulliyng na escola? Sertim!

Ser negra e gorda é diferente de ser branca e gorda. Meninas gordas quando brancas são menos preteridas do que negras magras. Então, creio que o repúdio por mim mesma iniciou-se pelo fato de eu ser preta, depois gorda. Comecei meu “embranquecimento”, como citado, ainda bem nova, com oito anos. Lembro quando pintava uma bonequinha de marrom, como a minha cor, e riam falando “ela é preta, é?”, como se eu fosse verde, ou como se zoar pretos na frente de pretos fosse extremamente normal(o que, através das redes sociais, vemos que o povo naturaliza mesmo, parem!). E depois disso parei de pintar as boneca de marrom porque não queria que imbecis interagissem comigo só pra me zoar, porque só interagiam comigo pra isso mesmo. Com o tempo, fui conquistando uma certa antissocialidade, pessoas antes de me conhecerem diziam que eu parecia “metida”, mas na verdade eu era “muito legal”. Isolar-me então foi uma ferramenta que encontrei pra não ser machucada gratuitamente só porque sou o oposto do esperado, e pior! Não buscava mudar. Olha que absurdo. Eu só mudei quando não aguentei mais, o que não adiantou já que continuavam fazendo piada do meu cabelo, antes “lua”(black), ou corda(quando com rasta) agora “cabelo ruim” e palha de aço(please racistas, mais criatividade).

Fanart da Chouchou aplicando o Jutsu modo borboleta, onde toda a gordura armazenada transforma-se em chakra(só tô explicando porque ela tá magra-q).

Fanart da Chouchou aplicando o Jutsu modo borboleta, onde toda a gordura armazenada transforma-se em chakra(só tô explicando porque ela tá magra-q).

O papel dos meus pais e bosta em relação a esse assunto sempre foram os mesmo, se eu reclamava que falavam do meu cabelo, incentivavam a alisar, se eu falava da gordofobia, me incentivavam a emagrecer. Diziam pra que eu ignorasse, parasse de frescura, crescesse,que todos somos iguais, e todos esses lixos demagógicos que pra quem utiliza como argumento, enfiem em seus respectivos cus. Se eu não tinha apoio nem dos meus pais, ao contrário, incentivo para me mudar, e todas as pessoas negras e gordas faziam o mesmo e ainda ajudavam a me maltratar porque ao contrário delas eu não procurava me mudar, chega uma hora que a porra do sistema vence. Parabéns, tornei-me uma adolescente que odeia a própria raça, repudia o próprio corpo, não suporta conviver com outras pessoas e se isola em um mundo virtual porque é o único lugar que ela pode não ser quem ela é, ou ser quem ela é, mas o lado que ninguém quis conhecer porque não a viam menos que uma feia preta e gorda.

Então fui suportando essa condição, fui aceitando que era normal mulher odiar o próprio corpo(rugas, celulite, estria, pneu, culote, pelo, estamos lutando contra nossa natureza em troca de que?), que ser gordo era automaticamente não ser saudável, cabelo crespo, pele escura e se intitular como “negro” era uma vergonha. E adivinha? Engordei mais. Sim, parei de fazer exercício porque estava indisposta demais para sair de casa, sair de frente do computador, que todas a minha vitalidade era sugada quando eu era obrigada a ir para a escola. Entrei em depressão profunda e só comecei a me reerguer quando conheci meu professor de sociologia no terceiro ano.

Antes de estudar sociologia, eu tinha a cabeça mais alienada do mundo. Peguem todo o conservadorismo, meritocracia, todos os argumentos reaças e joguem na minha cabeça. Eu era um protótipo de Bolsonaro e não sabia. Então, quando teve debate sobre cota racial, eu dizia que era desnecessário porque racismo não existia, e a sociologia me deu uma voadora na cara mostrando toda a condição do negro no Brasil e que meritocracia pra cultura brasileira da forma que ela foi construída é pura furada. Vi a história do negro não na perspectiva de coitadinho e submisso como a história aristocrata branca mostra, mas de um povo que carregou o Brasil nas costas e não tiveram nada em troca, conseguindo através de muito sangue e suor a voz que aos poucos se ouve agora.

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“Contra a estatização uterina, porque meu útero é propriedade minha!”. Abaixo estatuto do nascituro.

Meu professor era feminista. Sim, o feminismo foi-me introduzido por um homem. Tudo que ele ensinava sobre história era na visão de mulheres que até então eu nunca tinha ouvido falar e que teve importância extrema na história mundial, mas como sempre são apagadas. Li o Quarto de despejo e não acreditei que uma mulher da favelada pudesse ser tão poética e saber tanto sobre política(que até então só tinha acesso aos materiais da elite branca, até mesmo quando para se falar de pretos pobres, era sempre o branco aristocrata que tomava lugar da fala) Comecei lendo textos sobre aborto, então li material da Simoninha, assisti a filmes de grandes mulheres, até mesmo as que não eram feministas, mas eram poderosas. E fiz conta no facebook(até então vivia de fake no orkut ou fóruns). Primeiro blog feminista que comecei a ler foi Lola escreva e Feminismo sem demagogia(comecei inclusive quando tava na terceira postagem de inauguração!), fui entrando pra outros grupos sobre, até que conheci o blogueiras negras e fui enxergando brutalmente a luz. Observando e refletindo essas coisas maravilhosas sobre mim, sobre a mulher, sobre a negritude, senti não só que existiam pessoas como eu, mas que achei o meu lugar. Comecei tímida compartilhando coisas dessas páginas, discuti com e perdi muitos amigos(sim, e na época realmente me entristecia, porque tinha poucos amigos e os perdia só porque comecei a me reconhecer como humana, poxa), fui taxada por machistas, pegavam minhas fotos pra me zoar, me ofender, e tudo que já faziam comigo na vida real só porque eu me “valorizava”. A diferença é que agora eu tinha apoio, não estava mais só. Isso me tornou forte pra aguentar continuar. Até que dei o meu primeiro passo na vida”real”. Fui pra minha primeira Marcha das Vadias, sozinha(fui documentada por um fotógrafo que estava lá), e tive coragem de mostrar minhas pelancas pra todas as minhas irmãs verem. E elas adoraram! Mostraram suas pelancas e eu igualmente adorei!!!

936524_186285871544892_376178857_nDepois de me aceitar como mulher, e como gorda, passei para um dos passos mais difíceis na minha vida. Me aceitar como negra, fazendo minha transição capilar. Não preciso nem dizer a quantidade de reprovação dos familiares e comentários desagradáveis que recebi. E de negros, olha, que novidade… Mandaram eu alisar, disseram que eu parecia uma macaca de black(xingando preto de macaco, super original, parabéns racista, conseguiu de novo) e outras quantidades de comentários racistas seguidos de “é meu gosto/minha opinião”, mas se eu digo minha opinião eu estou sendo opressora, né preto agregado?

E então segui com a vida, cada dia me tornando mais forte, participando de mais grupos de transições(que antigamente eram muito poucos! Ser cacheada só é “tendência” agora, o empoderamento era praticamente só por parte das mulheres americanas), mais grupos feministas, lendo mais blogs sobre corpo, sociedade, indivíduo, tudo em perspectiva feminista e militante. Devorei meus livros de filosofia e sociologia. Suportei a luz.

No enigma da caverna de Platão, quando o indivíduo busca o conhecimento, ele volta para compartilhar com os colegas que o mata espancado em seguida(em algumas versões cortam esse final, por isso não dá pra saber se é real ou não). Eu vi a luz, compartilho a luz, fui e sou espancada diariamente, mas sobrevivi e sobrevivo, porque eu quero que todas as meninas que passam por isso sobrevivam também.

Com a minha transição capilar, consegui incentivar a minha mãe a fazer a dela, e ela fez. Minha prima está querendo fazer, e muitos me usam como referência (o que me deixa extremamente feliz).

Me aceitar como gorda não significa que eu queria ser gorda. Mesmo depois de todo o material e vivência que eu tinha, eu ainda desejava me mudar. Se a pessoa quer ser gorda, seja, se quer ser magra, emagreça, mas eu queria ser algo que eu nunca fui achando que eu poderia ser apenas por ser. Agora eu aceitava meu corpo, mas dentro dos limites estéticos permitidos, que era não mostrar nada. Seja feliz com seu corpo, mas dentro de uma burca! E muitas feministas apoiavam essa atitude na época, o Femen mesmo não aceitava gordas no movimento, porque elas diziam que mulheres feias sujam o feminismo. A imagem de “feminista é feia, por isso é feminista” afetava muita menina, elas sempre se defendiam falando que era feministas superiores, porque elas eram bonitas, ser comparadas as mulheres gordas e com buço ou pelos nos sovaco era extremamente ofensivo pra essas “feministas”. Em outras palavras, ser uma boa feminista era desmentir esses esteriótipos sendo bela e fazendo questão de mostrar o quão bela era, porque é muito horrível ser comparada a uma mulher feia!!! Preciso me defender! Então gordofobia, mais tarde, era praticada pelas minhas irmãs, logo, eu aceitava ser gorda, aceitava que você fosse gorda, mas eu não queria ser gorda porque era feio ser gorda. Descobri então o Shake “milagroso”.

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Antes

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Depois

tumblr_nv3cfp1tJq1s02libo6_1280Não consegui ficar magra, mas cheguei a 67 kg usando essa merda. Levando em conta que a época que mais fui magra na minha vida depois de menstruar foi 64 kg(cogitando que o “ideal” praquele teste de imc super errado que a internet faz sem levar em consideração nada além de altura e peso, na estatura genética de um europeu, é 58 kg). eu ainda estava gorda e precisava emagrecer mais. Só que depois de um tempo você para de emagrecer usando esses produtos, ainda que faça academia todos os dias como eu(eu fazia até spinning! fora a musculação e esteira), então passei a me estressar horrivelmente, e a depressão veio de novo. Eu queria atingir uma meta e não conseguia, na mesma época eu não tinha passado no vestibular, não consegui passar em concursos que tinha tentado, eu tinha que passar por constrangimento dizendo que era BV aos dezoito anos(o que era uó, depois descobri que tem altas pessoas assim, e que eu não perdi nada beijando os outros), enfim, eu terminei o ensino médio e não cresci na vida, não tinha nada, me sentia uma fracassada(mesmo que eu só tivesse 18 anos) e foi a época que mais sofri sem intervenção social. Sofri porque eu era eu mesma. Pela primeira vez eu bati de frente comigo. Não era a sociedade que me desprezava, era eu. E a auto-rejeição é a pior rejeição que se pode ter.

Tive leucemia.

Ter câncer foi a experiência mais dolorosa da minha vida. Quando falo sobre isso faço texto picotado, porque não consigo falar sobre abertamente. Serei breve ao explicar aonde quero chegar falando um pouquinho dessa experiência.
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O meu corpo era muito saudável, mas minha mente estava extremamente doente, o que fez o meu corpo produzir células cancerígenas. Se meus músculos não fossem tão fortes, se a gordura que eu tivesse não existisse(SIM, GORDURA, TECIDO ADIPOSO ME SALVOU, SEUS GORDOFÓBICOS DE BOSTA!), se meu coração, fígado, rins, todos os meus órgãos não fossem tão bem cuidados, eu não suportaria a quimioterapia que tomei tão bem quanto eu suportei. Lembro que uma das qts que tomei era subcutânea e mega forte, as enfermeiras disseram que se eu não tivesse gordura seria um tratamento muito difícil pra mim, que as pacientes magras ficavam empelotadas de caroços(tive alguns no braço, mas muito poucos), tão encaroçadas que não aguentavam tocar a si mesmas pela dor e que chegava a entristecê-las mais que perda de cabelo.

10155121_373336339506510_6687685536024150616_nPerder o cabelo foi difícil para mim, mas mais difícil foi ver o meu corpo murchar em um dia, inchar no outro, e assim consecutivamente. Eu me tocava e não sentia que era eu, era como estar em outro corpo dia após dia. Eu não deixava isso me abater, mas tinha dia que se eu tivesse oportunidade de me matar, eu o faria. Lutar contra o câncer é difícil, mas lutar contra a morte por não suportar mais a condição é mais. E isso porque fiquei em bons hospitais, tive minha mãe ao meu lado o tempo inteiro. Mas de pensar que minha auto-rejeição causou isso e que eu tinha que tirar do máximo das minhas forças para parar de me rejeitar era um puta desafio.

Não tinha mais pelos. Todos os pelos do meu corpo sumiram. Todos, até os que me protegiam. Eu me tocava e não sentia a asperidade de raspado, sentia uma textura que nunca tinha sentido antes. Não era minha pele. A angústia da falta de pelos crescia, quase igual do corpo inchado/murcho/inchado/murcho. As vezes eu tomava banho e ao mesmo tempo que me vangloriava por poder finalmente fazê-lo sozinha(falei um pouco da experiência de tomar banho de esponja aqui),chorava porque sentia que tinha me perdido. Sempre tentava esbanjar um grande sorriso nas fotos, até porque estava bem apesar do câncer, mas por dentro eu tentava lidar com esses problemas. Me aceitar careca, na fisionomia que eu me encontrava era ter que encarar a mim mesma de novo, depois de passar por uma auto-rejeição tão forte que sugou a minha juventude.

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Quando sobrevivi a minha experiência com a morte pela segunda vez, já que a primeira foi quando tive minha depressão profunda, refleti que eu era apenas mais uma das muitas marionetes que rondam esse mundo. Quando você acredita que não é normal ser você, por isso se mude ou morra, porque vamos fazer você morrer tentando, você só se submete a ficar na jaula que somos inseridos desde novos com o intuito de destruí-la. Qual é o sentido disso? Não sei, uns dizem grana, outros dizem deus, mas eu realmente não sei. Nem quero. Não vou mais viver na porra de uma jaula. Vou viver, vou ser quem sou, vou cagar pra vocês. Um dia todo mundo morre, então pra que vou antecipar só pra deixar oprimidos conformados e opressores felizes? Eu prefiro ser feliz que dar a felicidade a vocês, que não são felizes, da minha infelicidade. Não é fofo viver na jaula e sentir tanta inveja de quem consegue sair a ponto de querer enjaula-lo de novo, ou matá-lo na pior hipótese. Vou viver ao lado das outras milhões de mulheres que como eu não se encaixam em padrão algum e com a ajuda uma das outras vivem felizes. Sou negra, gorda e feminista com pelos no sovaco sim! Pelos, melanina, gordura, tudo que eu repudiei hoje fazem parte da minha identidade. E se não gosta, eu faço questão de te apoiar para que fique bem longe de mim!

Não precisamos de você, obrigada.

“I’m happy to be myself” – Amber Liu, Beautiful.

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3 pensamentos sobre “Gordura, melanina, pelos, meu corpo – Memorial

  1. Nossa . Te achei genial. Sou gorda e cacheada ! Porém, não passei pela transição, acompanhei a de uma amiga e sei como é difícil. Você já passou por mais desafios que muitas pessoas em toda uma vida e saiu muito bem dd tudo. Sou nerd e kpopper, daquelas com fama de gênio e um rosto não muito amistoso até os 2 primeiros segundos de conversa. Sei como é ter alguns problemas emocionais e as vezes mais críticas do que apoio, e isso é muito dificil, vou lembrar sempre do seu post. Em como as pessoas podem ser fortes no momento em que elas estão mais ainda a mercê das ocasiões. Parabéns de verdade e que Deus continue com você. Pois Ele só coloca um obstáculo na nossa trilha que nos somos capazes de ultrapassar. Você é incrível !
    Parabéns pela sua vida e desfrute-a bem, você mais do que merece.

    • Nossa, muito obrigada mesmo pelo apoio! É delicioso acordar e ler um e-mail tão bonito ❤
      Espero que todos os obstáculos postos a frente sejam apenas cones que possamos chutar e continuar correndo com as madeixas crespas ao vento enquanto rimos da situação. Estamos juntas nessa!

  2. Pingback: Dieta Low Carb, agora vai… | Dois dólares outra vez

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