De uma feia com autoestima elevada cansada da “atenção” de machista cis: solidão à relacionamento abusivo, seu bosta.

A visão dos homens cis-sexuais em relação a mulheres feias ou bonitas mudam de forma drástica quando externadas. Há um tempo que passei a analisar a forma que me tratavam e a forma que tratavam algumas amigas quando o assunto era elogio ou cantada. E nisso, utilizo como referência depoimentos de meninas feias e de meninas bonitas para construir essa linha de raciocínio.

Só para situar, as feias são as mulheres que não se encaixam em um padrão, e quando falo padrão, não me refiro às mulheres que são enaltecidas pela mídia. Minorias também são padronizadas. Você pode ser gorda, mas se não tiver o corpo tipo pera(quadris maiores que a cintura), e um rosto que compense seus quilos a mais, você é feia; pode ser negra, mas precisa do nariz fino e se encaixar no esteriótipo “globeleza”, do contrário é feia.

Depois de contextualizado, volto tentar explicar a minha inquietação quanto ao assunto. Quando mais nova, reparava que a minha irmã sempre era muito “elogiada” na rua. Para mim, e provavelmente a ela também, era constrangedor, porque ela não podia sair sem que lembrassem de sua gostosura. Com traços finos, pele clara e cabelos castanhos, se assemelhava a princesa Bella da Disney, embora não asiática, traço indígena forte dos olhos puxados também poderia ter a imagem representada por Mulan. Com isso, digo que ela parecia uma “princesa”, a nossa imagem do que seria uma princesa. E de fato, por onde andava, a chamavam de “princesa”, “lindinha”, o apelido mais tenso seria o “gostosa” quando usava calça corsária branca ou um short no verão. Por outro lado, minha prima materna, negra de pele azulada, mesmo biotipo – com exceção dos traços que não eram “finos”- não era elogiada, e quando era, eram “elogios” que na maior parte das vezes pareciam mais ofensas. Variava de “potranca” a frases como “se eu pego essa nega…”. Quase todos os assédios eram extremamente grosseiros, chegando a ser violentos por parte dos caras.

Com o tempo, cresci. Aqui jaz, para mim, a sorte de ser feia: não sofrer assédio. Pelo menos, eu achava que não era assediada…

De fato, nunca mexeram comigo na rua. Entretanto, resolvi baixar um aplicativo de relacionamentos com uma amiga, e, pra quem sabe, o tinder é um prato cheio, no qual você não só come, mas também é a comida. Fazendo parte de um cardápio, recebi dos elogios mais variados, adivinha qual era a lista? Exato, eu não era nem de longe uma referência pra Disney. Mas não precisa ir longe, minha amiga também tá longe de ser uma ariana, mas ninguém tomou a liberdade de dizer que ela tinha cara de que curtia tapas, ou engolia. Ou “você é tão gostosa, tem cara de que curte isso, aquilo, faz assim, faz assado”, tudo de cunho sexual. Os meus seios avantajados eram foco dos atentados. Foi raro alguém me dizer Oi, se me buscavam era pra coisa rápida, coisa que até então achava ser natural do aplicativo.

Conversei com todos os tipos de pessoas conhecidas também usuárias, e por mais que atraísse muito sexo, elas conseguiam manter uma conversa decente com a maioria. Shopping, cinema, parque, todos esses tipos de encontros elas conseguiram. Eu, por outro lado, só era chamada pra transar, mas em carros, porque motéis são muito “caros” pra se gastar com uma mina feia, ainda que seja de graça, ein! As vezes chegavam até como seres humanos normais, com um “Oi” seguido de “Tudo bem”, mas em seguida, diziam o quanto eu era linda e, adivinha, meus peitos eram enormes. Lembrar o quanto minhas tetas eram grandes de alguma maneira era um elogio para eles. Faziam parecer que era normal chegar em meninas falando dos peitos ou da bunda delas, o que é uma mentira. Os meninos não costumavam chegar nas minhas amigas falando das partes “íntimas” delas, elas até se assustavam com os diálogos que eu mostrava para elas, porque elas sabiam que esses tipo de comentário era ciente aos meninos de que espantavam mulheres. Então eu fui começando a perceber que esses “elogios” que eles faziam era algum tipo de esmola. Funciona assim: essa menina é feia, logo qualquer comentário “positivo” sobre ela é válido, afinal, ela tem muita sorte que eu estou a notando. É isso mesmo?

Quando o Rafinha Bastos fez a piada que o homem que estupra a mulher feia merece um abraço, porque é necessário coragem para se transar com uma mulher feia me faz refletir um pouco da visão que as pessoas possuem sobre mulheres feias. Seriam elas tão repugnantes que necessitam de uma pessoa com tanta pena delas que fala qualquer merda acreditando que elas estariam agradecidas por receberem um pouco de atenção? Sendo essa atenção até mesmo uma violência sexual? E então me vem em mente uma vez na rua que a minha prima andava com um short mais curto no verão, e apareceu um moço em um táxi falando o quanto ele desejava “esse bundão”, e de resposta ela disse pra ele tomar no cu. “Nossa, elogiei essa baranga e em troca foi grossa comigo. É uma desgraça mesmo essa porra.” foi o que disse antes de voltar a trabalhar.

No livro “A vida sexual da mulher feia”, Claudia Tajes reflete de cara que a mulher feia não foi feita para relacionamentos longos, afinal, os homens só desejam comê-las porque estavam com preguiça de se masturbarem. Eles se relacionam com você, mas não querem que ninguém saiba. Eles anseiam pelos seus atributos sexuais, porque sabem que as bonitas se guardam com medo do que eles pensarão delas, já as feias não têm esse problema porque sabem que eles pensam o pior de qualquer forma. A mulher feia é posta como um fetiche, eles procuram pelas feias porque acreditam que elas são mais fáceis de seduzir, porque qualquer atenção que elas recebam é como o dia de sorte na vida delas. Dinheiro pra saídas? Adulação em telefonemas? Fazer hora só pra causar boa impressão? Que nada, basta dar um pouco de atenção para uma feia – mesmo que as coisas que se diz para elas jamais seriam ditas para nenhuma outra mulher – que seus problemas acabaram. Seria isso mesmo?

Sinto em informar, mas se pensa assim, é hora de parar. Nós feias não precisamos ser agredidas para lembrarmos de nossas existências. Pra mim, a solidão é preferível ao mal trato, não preciso do seu pau porque minha boceta tem um clitóris magnífico que funciona com a minha própria estimulação. A companhia da minha família e dos meus amigos compensa qualquer desequilíbrio emocional que eu possa ter, e caso não possa recorrê-los, posso pagar um analista para fazer o trabalho sujo. Nós feias não precisamos da sua atenção, nós feias não aceitamos qualquer forma de tratamento, nós feias não somos emocionalmente diferente das bonitas para sermos tratadas de forma diferente. Apenas deixe de existir fingindo que não existimos também. Apenas não nos busque, caso busque, não seja um idiota, poupe a memenização nas redes sociais.

Biografias:

TAJES, CLÁUDIA. A vida sexual da mulher feia. http://baixarlivrosgratis.blogspot.com.br/2009/04/download-gratis-livro-vida-sexual-da.html

Para mais leituras:

“Gordos melhores que sarados” a opressão gordofóbica por trás desse discurso https://www.facebook.com/precisamosfalardegordofobia/posts/1626843384199790

Deixar de ser racista, meu bem, não é comer uma mulata

https://blogueirasnegras.org/2013/05/29/elogio-racista/

Desconstrução do que é belo em uma mulher.

“Prefiro mulheres gordas porque elas são mais assim”

Valoração “positiva” – Racismo e esteriótipos que compensem

http://blogueirasfeministas.com/2014/09/o-sexo-e-as-negas-racismo-e-estereotipos/

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3 pensamentos sobre “De uma feia com autoestima elevada cansada da “atenção” de machista cis: solidão à relacionamento abusivo, seu bosta.

  1. Genial quando você cita sobre como transformaram a “beleza negra” em um ladrão também, onde o nariz tem que ser fino, traços mais “delicados” uma verdadeira globeleza mesmo para ser considerado “bonito” isso me doi, sou negra e apanhei muito na minha pré adolescência por causa da minha cor e meu cabelo “duro”, depois disso nunca mais tive auto estima, não consigo andar em lugares movimentos, desvio da avenida para evitar que me vejam, é assustador o que uma sociedade doentia faz com o psicológico das pessoas , me doi mais ainda por não ser a única, por isso persistir mas sou graga por hoje ter uma visão crítica o suficiente para ver que o problema sao todos eles e não eu, que nunca foi eu. Estou aos poucos recuperando minha ” saúde mental” em relação a isso e achei genial teu texto, to apaixonada por você , um abraço!

    • Fico mesmo feliz que tenha gostado do texto. Como é um blog pessoal, nunca pretendi alcançar pessoas que não fossem meus conhecidos, então fico feliz em ver que uma pessoa que nem conheço se sentiu bem com algo feito por mim tendo apenas como intenção desabafo. hehehe
      beijos, e obrigada

  2. Pingback: Gordura, melanina, pelos, meu corpo – Memorial | Dois dólares outra vez

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