“Faço o que é bom para mim”

Esse texto é dirigido para as pessoas que são livres o suficiente para escolhem serem manipuladas pelo sistema egoísta, racista e colorista, mas não para problematizar as questões sociais dentro do movimento de resistência negro.

Fomos inseridos em um sistema capitalista onde o egoísmo é mais que bem visto, é necessário. Antes de achar que o mundo foi criado em cima desse sistema, leia um livro de sociologia e veja que até a wikipédia tem mais informação sobre o assunto do que você. Sendo o egoísmo base social desse sistema, muitos “argumentos” são embasados no “faço o que é bom para mim”. Vamos falar da resistência negra que existe no Brasil na atualidade.

O racismo, a visão eurocentrada e colorista ainda são tão presentes no Brasil, apesar de ser o 2° país com mais negros do mundo, é tão forte que foi uns dos últimos a abolirem o sistema afro-escravagista. Não precisa ser um puta estudioso para enxergar que o racismo no Brasil é gritante, basta ver nos documentos públicos a opção “pardo” para assinar. A resistência sempre existiu, mas foi quase apagada em 1891 pela queima de documentos de Rui Barbosa sob alegação do escravagismo negro ser uma mancha para o Brasil(claro, os problemas são resolvidos sob base de censura, sempre. Só que não), e durante muito tempo foi mascarada(metade dos santos católicos brasileiros são orixás africanos, pasmem) de todas as formas, ou apropriadas culturalmente para que possam ser validadas como cultura(e apenas quando brancos exercem que é cultura, do contrário é coisinha de selvagem). Atualmente, com bastantes conquistas, já podemos pelo menos dizer “sou negro”, você sempre vai ouvir alguém negando isso, nem que seja seu pai ou mãe brancos ou negros, mas poder, pode. Mas ainda tem muito a lutar, e umas das ondas de empoderamento bastante discutidas são as de assumir o cabelo crespo e namoro afro-centrado como resistências culturais, abolição das palavras “pardo” ou “morena”. Só que as pessoas não enxergam isso como atos políticos, elas ficam sob o pretexto de que “amor não se escolhe(NÃO ESTOU ENTRANDO EM QUESTÕES DE GÊNERO, NEM DA SOLIDÃO DE MULHERES FORA DOS PADRÕES QUE NÃO POSSUEM ESCOLHAS –  obesas, deficientes, etc)”, “acho liso mais bonito/menos trabalhoso” e finalmente “faço o que é bom para mim”. Amor e noções de estética são construções sociais, assim como essa visão de “faço o que é bom para mim”. Na história de Zumbi dos Palmares de Renato Lima, alguns dados históricos são citados:

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Por mais que tenha uma romantização por tratar-se de literatura, e os dados históricos em maioria ser esmagadora oral por causa da destruição de Rui Barbosa, há exemplos de pessoas que morreram pelo que se acredita na história da humanidade aos quilos.

Então, mais da metade das pessoas abriram mão de viver alforriados em sua vila para morrerem em nome dos outros dos seus? Essa é a nossa história de resistência, pessoas morreram sabendo que iam morrer para que você estivesse aqui onde está. Morte, elas perderam a vida, e escolheram isso para libertar nossos ancestrais, para que nós fossemos livres como somos agora. E você utilizando o argumento egoísta de “faço o que é bom pra mim” para não participar das formas de resistência mas colher frutos dela passando por cima de todos que morreram pra que você estivesse aqui? Não é só estética, não é só falsa concepção de amor como algo que “acontece”, não é só a bosta do arJumento de que somos iguais perante Deus. É política, é resistência, é valorização da identidade cultural que constrói o que você é, é ter plena certeza de que você tem escolhas. É enxergar que quanto mais de nós nos reconhecemos negros, quanto mais de nós nos assumirmos negros de todas as formas possíveis, quanto mais de nós entendermos os problemas das palavras coloristas que utilizamos para nos identificar mais forte a nossa resistência vai ficar, mais aceitação todo o nosso grupo vai ter, e que se não nos unirmos, todos nós ficaremos prejudicados. Você simplesmente é um ou uma egoísta filho da puta que está muito confortável no espaço que pessoas morreram de forma cruel para conquistar e que brancos a todo momento tentam apagar, diminuir, mostrar que se você vive é por esmolas dadas por eles, mas existem os que valorizam as conquistas fazendo o possível para resistir. Passar por cima de várias pessoas para que você faça o que é bom para você não só te tira do protagonismo da luta como atrapalha para que ela avance. E se ela avança pela resistência de outros, você está lá para colher os frutos certinho, já que você sempre está disposto a fazer o que é bom para você.

Leituras importantes para o entendimento do texto:

Cabelo crespo como ato político

http://blogueirasnegras.org/2014/11/21/o-uso-do-cabelo-natural-como-ato-politico/

Amor afro-centrado

http://blogueirasnegras.org/2014/06/10/amor-afrocentrado/

Amor inter-racial e a falsa democracia racial

http://cnncba.blogspot.com.br/2008/11/relaes-inter-raciais-falsa-democracia.html

Relações inter-raciais, isso não é sobre o amor

http://blogueirasnegras.org/2013/05/10/relacoes-inter-raciais-isso-nao-e-sobre-amor-2/

Amor afro-centrado e inter-racial

http://www.revistacapitolina.com.br/familias-afrocentradas-e-inter-raciais/

Síndrome de Cirilo e a solidão da mulher negra

http://blogueirasnegras.org/2013/06/14/sindrome-de-cirilo-e-a-solidao-da-mulher-negra/

Sobre colorismo

http://blogueirasnegras.org/2013/05/20/a-face-racista-da-miscigenacao-brasileira-2/

Mulher negra como fetiche http://blogueirasnegras.org/2013/05/29/elogio-racista/

Resistência dos símbolos

http://blogueirasnegras.org/2013/11/27/tirem-maos-simbolos-luta/

A solidão da mulher negra e o casamento afrocentrado vs interracial

http://blogueirasnegras.org/2014/10/14/so-o-amor-afrocentrado-cura-e-liberta/

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