Gordofobia e o machismo nos quadrinhos da Turma da Mônica

Já debatemos a respeito de diferenças aqui no blog utilizando a Turma da Mônica como referência, a HQ Tina, o triângulo da confusão indicada para debater a diversidade sexual na literatura infantil. Hoje, ainda no gancho de debate acerca da literatura infantil e suas abordagens sobre diferenças, faço uma crítica aos materiais que acompanhei, desta vez focando na perpetuação machista através da gordofobia indicada em alguns quadrinhos.

“Baixinha, dentuça e gorducha”, esse não seria o bordão do Cebolinha? Todos rimos quando nossa protagonista corre atrás de um dos personagens mais amados da famosa HQ que carrega em suas costas 50 anos de tiragem. Cada particularidade, piada, a taxação de cada característica que torna o quadrinho mais divertido. Mas e quando a série, de forma inconsciente, passa uma mensagem negativa em um dos seus quadrinhos como por exemplo uma menina de oito anos que se diz insatisfeita com o próprio corpo? Quando ser gordo deixa de ser característica divertida entre duas crianças e passa a ser repúdio disfarçado em piada em um dos cartuns? Quando essa particularidade de ser gorda que é o que torna a nossa Mônica singular e divertida vira um problema a ponto de ser mudado quando passamos para a adolescência, introduzindo-a até a sexualização infantil(lolismo)?

Começamos com a história “Vai que cola” do personagem Piteco no almanaque “Uma aventura no parque de diversão da Mônica”.

Piteco, uma caricatura de homem das cavernas, no quadrinho salva uma garota e ela o beija como agradecimento. A garota é aparentemente bonita, conforme os padrões de HQ americano, extremamente sensualizada. Ele gosta da recompensa e passa a salvar todas as garotas que consegue, sendo beijado por cada uma delas, amando receber essa troca. De repente, Piteco salva uma moça gorda de um urso, ela, como todas as outras garotas, o beija como recompensa. Piteco aparenta não gostar muito do beijo, quando ela “ameaça” dar mais um, ele sai correndo gritando por socorro.

Contrário do sutil machismo de mulher que troca proteção de um homem por favores sexuais, a gordofobia é gritante. Ele não só recusou a recompensa como se apavora com a ideia. Qual é o humor da tira? Em que ele se aplica? É engraçado demonizar uma mulher gorda? Mulheres gordas são feias? Mulher pode ter dois papéis, o de objeto de desejo e o de objeto de zoação? Mulheres “feias” são inferiores a mulheres bonitas? É o tipo de humor que uma criança apreciaria? A criança gorda ficaria chateada? E a moral da história seria meninas doutrinadas a precisarem de proteção, meninos doutrinados a proteger as meninas visando sexo em troca? Os meninos vão tratar as meninas assim e as meninas vão achar natural serem tratadas assim?

Aparentemente a gordofobia nas histórias da personagem carismática por ser gorda não para por aí. Até porque, Mônica, uma criança de oito anos, detesta o fato. Sim, a edição “O segredo de comer e não engordar” mostra isso.

Vamos fazer uma curta análise multimodal com essa linda capa. O almanaque é da nossa personagem Magali, normalmente voltado para o público infantil feminino. Veja, o nome desta edição está do lado esquerdo, destacado com bordas azuis e letras de fonte arredondada. Segundo o livro “Introdução a multimodalidade” de Josênia Vieira, quando uma propaganda possui o texto do lado esquerdo, significa o foco idealizado, o que se deseja ao possuir o produto; se o texto estiver na parte inferior da imagem, é o real, o que realmente está sendo vendido; letras arredondadas atingem o público que possui mais contato com manuscrito; a cor varia conforme a cultura, e na nossa, o azul em propaganda predomina “sede de conhecimento”, “sabedoria”, por isso os logotipos das livrarias normalmente são azuis. Levando em consideração que o público da revista são meninas de aproximadamente oito anos, ou seja, ainda estão em período de alfabetização(escrevem muito, tem muito contato com manuscrito para aprender), “O segredo de comer e não engordar” está minimamente destacado para atingir seu público, como se o segredo de comer e não engordar interessasse muito crianças de oito anos. A história resumida se dá em uma mulher que persegue Magali com uma mosca-câmera para descobrir a fórmula de emagrecimento dela. Logo que essa nutricionista é pega pela Turma enfurecida por estar perseguindo e gravando a privacidade da amiga, enquadram ela aborrecidos até que tudo se ameniza, por parte de Mônica, quando a mulher revela o mistério do por que estar perseguindo a Magali. Veja o texto:

“E não causou”, afirmou Mônica que ao longo do texto concordou com a mulher o quanto também buscava emagrecer, o quanto ser magra era desejável por ela. A mulher que até então era vilã da história, torna-se a heroína por estar em busca do milagre que Mônica, uma menina de oito anos, sonhava. Emagrecer.

Em contrapartida, no almanaque da Magali, edição Reino das melancias, ser gordo é aceitável, sim. É algo até legal para o personagem Quinzinho. Sim, Quinzinho, um menino!

Com a moral da história “O que importa é beleza interior”, meninas mostrando para meninos o quanto eles são maravilhosos até gordos, algo que até então era tratado com repúdio pelo autor, é do que a história se trata.

O quadrinho começa com as meninas falando sobre o Quinzinho. Inicialmente, vemos tons de deboche, claro, ver gordo sendo maltratado é engraçado, como aborda no quadrinho de Piteco. Então, Magali intervém como heroína, o que encanta o Quinzinho que está escutando lá atrás. Então, ela finalmente fala do quanto seria legal uma fada sugar uns dois quilos de gordura do menino.

Magali dizendo para a amiguinha bully – quase vilã na história – que prefere Quizinho mais magrinho.

Quinzinho, ao escutar aquilo que sua amada disse, fez uma repaginada completa no visual sumindo por uma semana. Comprou lentes azuis, uma peruca maneira e, claro, emagreceu! Para ser bonito para a pessoa amada, precisa ser magro, não é.

Observem que durante a história, Quinzinho vai ditando o que gosta ou não em uma mulher, e as meninas, claro, vão mostrando comportamento diferente do que possuem na tentativa de agradá-lo. Enquanto ele diz o quanto são vazias, o quanto elas são sem graça, o quanto não são originais, em contraponto, diz o quanto Magali é original, o quanto é legal, o quanto ela o merece. Observem então que as meninas que riram e zoaram de Quinzinho são apresentadas como pessoas ruins, como vilãs. Já Magali, que gosta dele, essa sim é maravilhosa.

Magali no primeiro quadrinho está com meninas que durante a história vão se mostrando “más”, “vazias”, “bullies”, e adivinha? Elas não gostam do Quinzinho por ele ser gordo. A Magali não, ela é super legal durante os quadros, original, sincera, e oh! Ela prefere o Quinzinho gordo. Eu disse “prefere”, ela não acha mais aceitável, ela acha melhor que.

Observem Quinzinho na Mônica Jovem.

Como característica dele no quadrinho, um menino robusto, mas galanteador para meninas legais como Magali.

Já a nossa baixinha, dentuça e gorducha, a personagem principal que tinha como particularidade principal ser gorda…

Mônica aos dezesseis anos. Magra, utilizando seu clássico vestidinho vermelho, aparentemente o mesmo de quando tinha oito anos, já que é tão pequeno que está até subindo

Mas por que nossa protagonista perdeu sua característica principal? Lembram-se do início, no quadrinho de Piteco que relata os dois papéis sociais da mulher? Ou ela é alvo de diversão ou objeto de desejo. E aqui temos Mônica adolescente e completamente sensualizada. Aos 14 anos!

Piadinha de mal gosto onde Mônica agradece Cebolinha o abraçando com o rosto do menino em direção aos seios ligeiramente avantajados para uma menina de quatorze anos.

Então, categorizando, crianças de oito a dezesseis anos, se você for menina aprenda que existe dois tipos de mulheres, as gordas e as magras. As gordas são inferiores às magras, elas só servem para ser motivo de piada. Se ela for magra, ela é objeto de desejo, por isso não importa se ela tem quatorze anos, ela sempre vai oferecer sexo em troca, porque mulheres servem para isso segundo os quadrinhos citados, entretenimento masculino.

A doutrinação funciona quando se aborda um mesmo tema repetidas vezes, pregando como algo natural, como o caminho a se seguir. A partir do momento em que é abordado a menina que busca proteção masculina porque precisa ser protegida(como é o caso dos antigos desenhos da Disney), o homem busca em troca o afeto feminino por protegê-la ou o repúdio visando humor se ela não for o esperado. E se o menino não for o esperado – como o caso do Quinzinho, que era gordo -, caso não gostem dele por isso, a culpa é da mulher, que é superficial. Esses quadrinho estão levando a frente tudo que atualmente tentamos desconstruir. A Mônica que era legal por ser diferente do que normalmente era abordado nos contos de Princesa, era uma menina brava, que se defendia, era gorda, agora é uma menina magra, sensualizada. Não importa se ela tem oito anos e é voltada para o público de oito anos, ela está preocupada com estética, vaidade, ela quer saber o segredo de emagrecer e não engordar. Não importa se ela tem quatorze ou dezesseis anos, ela é vista sob uma abordagem lolista, fetichista. Enquanto eles “amadurecem” as meninas nos quadrinhos, os meninos permanecem usufruindo da infância, Cascão continua não tomando banho, Cebolinha ainda troca R por L de vez em quando(considerado até um charme por Mônica), Quinzinho continua gordo(por que Magali quando criança disse que prefere ele como é, a menina que tem que ser amadurecida, concedeu ao menino o direito de não se preocupar com essas coisas, até porque ele é criança e não precisa acelerar o amadurecimento porque é menino).

Que mensagem o autor quer passar com essas abordagens? Minha opinião está subentendida, mas qual será a dele? Qual é a opinião de vocês? Se incomodariam se crianças próximas de vocês tivessem acesso a esse conteúdo sem conversar com adultos antes? Qual seria a opinião das crianças sobre esses quadrinhos? E as meninas? E as meninas gordas?

Referências:

OLIVEIRA, EDSON. Gatilhos mentais. Mais persuasão, Brasil 2014 < http://maispersuasao.com.br/psicologia-das-cores >

SOUSA, MAURÍCIO. Magali: no reino das melancias. N° 73. São Paulo: Panini Comics, janeiro de 2013.(Série Mônica 50 anos)

SOUSA, MAURÍCIO. Magali: o segredo de comer e não engordar. N° 38. São Paulo: Panini Comics, fevereiro de 2010.

SOUSA, MAURÍCIO. Turma da mônica, uma aventura no parque: o Cebolinha perdeu a memória. N° 40. São Paulo: Panini Comics, abril de 2010. (Série Parque da Mônica)

SOUSA, MAURÍCIO. Turma da Mônica Jovem: Quatro dimensões mágicas – Parte I. N° 1. São Paulo: Panini Comics. Agosto, 2008.

 Autoria: Amanda Barros
Postado no Livros Abertos – Aqui todos contam

“Faço o que é bom para mim”

Esse texto é dirigido para as pessoas que são livres o suficiente para escolhem serem manipuladas pelo sistema egoísta, racista e colorista, mas não para problematizar as questões sociais dentro do movimento de resistência negro.

Fomos inseridos em um sistema capitalista onde o egoísmo é mais que bem visto, é necessário. Antes de achar que o mundo foi criado em cima desse sistema, leia um livro de sociologia e veja que até a wikipédia tem mais informação sobre o assunto do que você. Sendo o egoísmo base social desse sistema, muitos “argumentos” são embasados no “faço o que é bom para mim”. Vamos falar da resistência negra que existe no Brasil na atualidade.

O racismo, a visão eurocentrada e colorista ainda são tão presentes no Brasil, apesar de ser o 2° país com mais negros do mundo, é tão forte que foi uns dos últimos a abolirem o sistema afro-escravagista. Não precisa ser um puta estudioso para enxergar que o racismo no Brasil é gritante, basta ver nos documentos públicos a opção “pardo” para assinar. A resistência sempre existiu, mas foi quase apagada em 1891 pela queima de documentos de Rui Barbosa sob alegação do escravagismo negro ser uma mancha para o Brasil(claro, os problemas são resolvidos sob base de censura, sempre. Só que não), e durante muito tempo foi mascarada(metade dos santos católicos brasileiros são orixás africanos, pasmem) de todas as formas, ou apropriadas culturalmente para que possam ser validadas como cultura(e apenas quando brancos exercem que é cultura, do contrário é coisinha de selvagem). Atualmente, com bastantes conquistas, já podemos pelo menos dizer “sou negro”, você sempre vai ouvir alguém negando isso, nem que seja seu pai ou mãe brancos ou negros, mas poder, pode. Mas ainda tem muito a lutar, e umas das ondas de empoderamento bastante discutidas são as de assumir o cabelo crespo e namoro afro-centrado como resistências culturais, abolição das palavras “pardo” ou “morena”. Só que as pessoas não enxergam isso como atos políticos, elas ficam sob o pretexto de que “amor não se escolhe(NÃO ESTOU ENTRANDO EM QUESTÕES DE GÊNERO, NEM DA SOLIDÃO DE MULHERES FORA DOS PADRÕES QUE NÃO POSSUEM ESCOLHAS –  obesas, deficientes, etc)”, “acho liso mais bonito/menos trabalhoso” e finalmente “faço o que é bom para mim”. Amor e noções de estética são construções sociais, assim como essa visão de “faço o que é bom para mim”. Na história de Zumbi dos Palmares de Renato Lima, alguns dados históricos são citados:

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Por mais que tenha uma romantização por tratar-se de literatura, e os dados históricos em maioria ser esmagadora oral por causa da destruição de Rui Barbosa, há exemplos de pessoas que morreram pelo que se acredita na história da humanidade aos quilos.

Então, mais da metade das pessoas abriram mão de viver alforriados em sua vila para morrerem em nome dos outros dos seus? Essa é a nossa história de resistência, pessoas morreram sabendo que iam morrer para que você estivesse aqui onde está. Morte, elas perderam a vida, e escolheram isso para libertar nossos ancestrais, para que nós fossemos livres como somos agora. E você utilizando o argumento egoísta de “faço o que é bom pra mim” para não participar das formas de resistência mas colher frutos dela passando por cima de todos que morreram pra que você estivesse aqui? Não é só estética, não é só falsa concepção de amor como algo que “acontece”, não é só a bosta do arJumento de que somos iguais perante Deus. É política, é resistência, é valorização da identidade cultural que constrói o que você é, é ter plena certeza de que você tem escolhas. É enxergar que quanto mais de nós nos reconhecemos negros, quanto mais de nós nos assumirmos negros de todas as formas possíveis, quanto mais de nós entendermos os problemas das palavras coloristas que utilizamos para nos identificar mais forte a nossa resistência vai ficar, mais aceitação todo o nosso grupo vai ter, e que se não nos unirmos, todos nós ficaremos prejudicados. Você simplesmente é um ou uma egoísta filho da puta que está muito confortável no espaço que pessoas morreram de forma cruel para conquistar e que brancos a todo momento tentam apagar, diminuir, mostrar que se você vive é por esmolas dadas por eles, mas existem os que valorizam as conquistas fazendo o possível para resistir. Passar por cima de várias pessoas para que você faça o que é bom para você não só te tira do protagonismo da luta como atrapalha para que ela avance. E se ela avança pela resistência de outros, você está lá para colher os frutos certinho, já que você sempre está disposto a fazer o que é bom para você.

Leituras importantes para o entendimento do texto:

Cabelo crespo como ato político

http://blogueirasnegras.org/2014/11/21/o-uso-do-cabelo-natural-como-ato-politico/

Amor afro-centrado

http://blogueirasnegras.org/2014/06/10/amor-afrocentrado/

Amor inter-racial e a falsa democracia racial

http://cnncba.blogspot.com.br/2008/11/relaes-inter-raciais-falsa-democracia.html

Relações inter-raciais, isso não é sobre o amor

http://blogueirasnegras.org/2013/05/10/relacoes-inter-raciais-isso-nao-e-sobre-amor-2/

Amor afro-centrado e inter-racial

http://www.revistacapitolina.com.br/familias-afrocentradas-e-inter-raciais/

Síndrome de Cirilo e a solidão da mulher negra

http://blogueirasnegras.org/2013/06/14/sindrome-de-cirilo-e-a-solidao-da-mulher-negra/

Sobre colorismo

http://blogueirasnegras.org/2013/05/20/a-face-racista-da-miscigenacao-brasileira-2/

Mulher negra como fetiche http://blogueirasnegras.org/2013/05/29/elogio-racista/

Resistência dos símbolos

http://blogueirasnegras.org/2013/11/27/tirem-maos-simbolos-luta/

A solidão da mulher negra e o casamento afrocentrado vs interracial

http://blogueirasnegras.org/2014/10/14/so-o-amor-afrocentrado-cura-e-liberta/