Chapeuzinho vermelho, doutrinações e o debate acerca da infância.

Contos de fadas – Diferentes épocas, mesmas abordagens.

Todos estão cansados de saber que a Disney não é responsável pela criação e autoria dos contos de fada, apenas se apropriou e fez releituras de contos orais existentes, alguns, até anteriores a Cristo. Também não é segredo que, apesar dos muitos acessos que temos a essas histórias, como sido passado a frente por Charles Perrault, Irmãos Grimm, Madame D’aulnoy, os contos não são de propriedade deles, isto é, não foram criados por eles, mas sim transcritos de contações construídas conforme as necessidades das épocas(como a mitologia).

Apesar de antigas, crianças ainda se identificam com os personagens das lendas e reconhecem cada símbolo ou moral por trás dos contos. Comecemos por Chapeuzinho Vermelho.

A primeira compilação escrita encontrada – segundo muitas fontes em comum da internet – foi a do Charles Perrault, século XVII no livro “Contos de Mamãe Gansa”. Contudo, a versão que nos é passada hoje é uma adaptação dos Irmãos Grimm que só se diferencia no ápice e final da história. Vamos por partes.
Chapeuzinho vermelho basicamente fala de uma criança que usa um capuz vermelho que vai levar doces para sua avó. Por ser uma menina, sua mãe sugere que não vá pela floresta porque é perigoso, nem converse com estranhos, mas desobedecendo-a, a garota decide ir. No meio da floresta, encontra um lobo, ela conta o que está fazendo, daí o lobo sugere que ela vá por outro caminho, então ela vai. Chegando na casa da avó, Chapeuzinho não a encontra, mas sim o lobo no lugar dela. Não diferencia ambos, mas a estranha. Para se deitar, sua “vovó” exige que a menina tire a roupa e a jogue no fogo.
Quando embaixo dos lençóis com o lobo, começa o diálogo clássico:

“Vovó, que olhos grandes você tem”; “É para te olhar melhor, minha netinha”; “Que mãos grandes você tem.”; “É para te tocar melhor, minha netinha”; “Que boca grande você tem”, “É para te comer”. E aí a Chapeuzinho Vermelho é literalmente comida pelo lobo. Na versão dos Irmãos Grimm, surge a figura do caçador que corta a barriga do Lobo e salva a menina e sua avó. Em outras versões(que não foram feitas para criança, como uma compilação de Maria Tatar com versões dos contos orais famosos no século XIX) existem outras simbologias como canibalismo, golden shower(sim!), prostituição infantil e etc, mas tenho outros objetivos nessa postagem.

Como sabem, a Europa do século XVII é período da Renascença, transição Idade média e Iluminismo, ou seja, guerra não faltava. Em períodos de guerra, não é segredo que o medo constante é uma rotina na vida das pessoas. Essas lendas foram criadas, como já foi dito, em cima da necessidade da cultura, da época. Então o que podemos observar nesses contos de fadas as primeiras compilações? Todas abordam atrocidades com naturalidade. Quase todas ocorrem em florestas. As coisas ruins quase sempre acontecem devido a desobediências ou afastamentos. A maioria dos personagens são crianças ou adolescentes.

Chapeuzinho vermelho, o mistério. É a menina que movida pela curiosidade embarca na aventura de ir justamente pelo caminho proibido pela mãe. É a moça que, nesse caminho perigoso onde ela não deveria por os pés, conversa com um estranho, o apelidado de “Lobo”. O Lobo, o ser que perambula por lugares considerado proibidos, prefere armar para criancinhas indicando caminhos errados para no fim comê-las, invés de comê-las de vez. E por último, presente em compilações de século posterior, Iluminismo, revolução industrial, o caçador – a figura masculina que se passar por herói, a esperança no final da história.

Tantos simbolismos nos faz questionar se essas lendas que até hoje impactam as crianças com necessidades e culturas totalmente diferentes tinham a intenção de apenas doutrinar.
Chapeuzinho vermelho é um conto que debate passo a passo a questão da infância, o período mais importante da construção humana. Antigamente, não existia psicanálise, não existia espaço para questionamentos tão abertamente como hoje (veja só, transição idade das trevas, você quer mesmo falar de sexualidade em uma época que sonhar já era suficiente para te queimar em fogueiras?), então como discutir questões tão importantes em lugares restritos? Códigos não servem para isso desde que o mundo é mundo?
O manto vermelho. Ele é tão importante que ninguém sabe o nome da menina, apenas sabem que ela usa um chapéu vermelho. Nada acontece com esse chapéu, ele não é um elemento mágico, ele não é sequer citado mais de uma vez na história, o que ele faz apenas é identificar a menina. Por que tamanha importância, então? Por que tanta ênfase em sua cor? Seria uma forma de representar a transição de uma moça, o símbolo é a menstruação, o que a torna de menina uma mulher.
Como uma jovem mulher, em tal época, chapeuzinho seria algo desejável, então sua mãe diz “não vá pela floresta” porque o perigo existe lá. A floresta seria a curiosidade, o que indica aventura em quase todos os contos. Mesmo sabendo do perigo, Chapeuzinho vai por lá, e não satisfeita, conversa com o primeiro estranho que encontra. O Lobo são os males que existem na floresta, não só o lobo, mas os ogros e as bruxas também costumam morar em florestas. O desconhecido assume a figura de um lobo porque mais a frente veremos que tem uma conotação sexual.
Reparem que ao chegar na casa, Chapeuzinho Vermelho estranha a avó, mas seus direcionamentos não são aleatórios. Primeiro, tem que ficar nua para entrar debaixo dos lençóis. O ato de jogar as roupas no fogo,  na chama, que normalmente nos liga a sexo, como “chama da paixão”, “me acendeu uma chama” quando queremos eufemizar a palavra “excitado”. Em algumas versões, após jogar as roupas no fogo, Chapeuzinho quer urinar. A vontade de excretar pelos genitais está completamente ligado ao sexo, principalmente à masturbação feminina. E os diálogos, não apenas direcionados, mas repetitivos. A repetição sugere sexo também, como a penetração – o vai e vem-, ou a estimulação clitoriana que se trata de repetidos movimentos para que possa se chegar ao ápice.

“Seus olhos grandes”, o lobo que observa a menina nua com desejo, suas mãos grandes, a vontade de apalpá-la, e a boca grande que a comeu – que a pôs para dentro. Daí, o caçador.

Será que ele seria apenas uma esperança? Veja que ele foi colocado de uma forma absurda no conto, cortou a barriga do lobo para salvá-la invés de tê-la salvado antes que o lobo a devorasse. Esta compilação dos irmãos Grimm, também a mais famosa, surgiu na época da revolução industrial que teve seu início na Inglaterra, e mais tarde, na Alemanha. Na revolução industrial foi necessário que as mulheres passassem a trabalhar, a mão de obra feminina era mais barata, muitas vezes fazendo o homem assumir papéis na família que não tinha antes (isto é, no sistema feudal), como ajudar a educar as crianças. O caçador é a figura masculina do pai que, como Freud descreveu a função do pai na relação entre mãe e filhoé de separação, é uma pessoa que separa o filho da mãe, ou seja, faz com que a criança repare que ela e a mãe não são uma só pessoa, mas duas, é o ser que trás a realidade à tona, sendo materializado (concreto) ou não(ideia de pai).

O caçador corta a barriga do lobo para tirar o que ele pôs para dentro. A simbologia da fase oral e anal, por para dentro e para fora, conhecer e reproduzir.
Hoje, com polícia, outra visão de família, um sistema político-econômico e social completamente diferente, espaço físico quase oposto (para quem mora na cidade), ainda sim as crianças se identificaram com os contos devido aos seus conteúdos simbólicos. Não importa a época, nos acessam por se tratar da infância, da natureza humana, da curiosidade, conhecimento e reprodução, base.

Claro que existem outras interpretações possíveis para esse conto, mas por hoje utilizo uma interpretação Freudiana minha como base.

Para quem gosta de contar história para crianças, gostaria de lançar uma desafio. Conte este conto, Chapeuzinho Vermelho (pode ser a versão bonitinha adaptada para nossa época mesmo), para uma criança de preferência de forma dialógica e se puder traga nos comentários a experiência.
Também postado no Livros Abertos
 
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