Chapeuzinho vermelho, doutrinações e o debate acerca da infância.

Contos de fadas – Diferentes épocas, mesmas abordagens.

Todos estão cansados de saber que a Disney não é responsável pela criação e autoria dos contos de fada, apenas se apropriou e fez releituras de contos orais existentes, alguns, até anteriores a Cristo. Também não é segredo que, apesar dos muitos acessos que temos a essas histórias, como sido passado a frente por Charles Perrault, Irmãos Grimm, Madame D’aulnoy, os contos não são de propriedade deles, isto é, não foram criados por eles, mas sim transcritos de contações construídas conforme as necessidades das épocas(como a mitologia).

Apesar de antigas, crianças ainda se identificam com os personagens das lendas e reconhecem cada símbolo ou moral por trás dos contos. Comecemos por Chapeuzinho Vermelho.

A primeira compilação escrita encontrada – segundo muitas fontes em comum da internet – foi a do Charles Perrault, século XVII no livro “Contos de Mamãe Gansa”. Contudo, a versão que nos é passada hoje é uma adaptação dos Irmãos Grimm que só se diferencia no ápice e final da história. Vamos por partes.
Chapeuzinho vermelho basicamente fala de uma criança que usa um capuz vermelho que vai levar doces para sua avó. Por ser uma menina, sua mãe sugere que não vá pela floresta porque é perigoso, nem converse com estranhos, mas desobedecendo-a, a garota decide ir. No meio da floresta, encontra um lobo, ela conta o que está fazendo, daí o lobo sugere que ela vá por outro caminho, então ela vai. Chegando na casa da avó, Chapeuzinho não a encontra, mas sim o lobo no lugar dela. Não diferencia ambos, mas a estranha. Para se deitar, sua “vovó” exige que a menina tire a roupa e a jogue no fogo.
Quando embaixo dos lençóis com o lobo, começa o diálogo clássico:

“Vovó, que olhos grandes você tem”; “É para te olhar melhor, minha netinha”; “Que mãos grandes você tem.”; “É para te tocar melhor, minha netinha”; “Que boca grande você tem”, “É para te comer”. E aí a Chapeuzinho Vermelho é literalmente comida pelo lobo. Na versão dos Irmãos Grimm, surge a figura do caçador que corta a barriga do Lobo e salva a menina e sua avó. Em outras versões(que não foram feitas para criança, como uma compilação de Maria Tatar com versões dos contos orais famosos no século XIX) existem outras simbologias como canibalismo, golden shower(sim!), prostituição infantil e etc, mas tenho outros objetivos nessa postagem.

Como sabem, a Europa do século XVII é período da Renascença, transição Idade média e Iluminismo, ou seja, guerra não faltava. Em períodos de guerra, não é segredo que o medo constante é uma rotina na vida das pessoas. Essas lendas foram criadas, como já foi dito, em cima da necessidade da cultura, da época. Então o que podemos observar nesses contos de fadas as primeiras compilações? Todas abordam atrocidades com naturalidade. Quase todas ocorrem em florestas. As coisas ruins quase sempre acontecem devido a desobediências ou afastamentos. A maioria dos personagens são crianças ou adolescentes.

Chapeuzinho vermelho, o mistério. É a menina que movida pela curiosidade embarca na aventura de ir justamente pelo caminho proibido pela mãe. É a moça que, nesse caminho perigoso onde ela não deveria por os pés, conversa com um estranho, o apelidado de “Lobo”. O Lobo, o ser que perambula por lugares considerado proibidos, prefere armar para criancinhas indicando caminhos errados para no fim comê-las, invés de comê-las de vez. E por último, presente em compilações de século posterior, Iluminismo, revolução industrial, o caçador – a figura masculina que se passar por herói, a esperança no final da história.

Tantos simbolismos nos faz questionar se essas lendas que até hoje impactam as crianças com necessidades e culturas totalmente diferentes tinham a intenção de apenas doutrinar.
Chapeuzinho vermelho é um conto que debate passo a passo a questão da infância, o período mais importante da construção humana. Antigamente, não existia psicanálise, não existia espaço para questionamentos tão abertamente como hoje (veja só, transição idade das trevas, você quer mesmo falar de sexualidade em uma época que sonhar já era suficiente para te queimar em fogueiras?), então como discutir questões tão importantes em lugares restritos? Códigos não servem para isso desde que o mundo é mundo?
O manto vermelho. Ele é tão importante que ninguém sabe o nome da menina, apenas sabem que ela usa um chapéu vermelho. Nada acontece com esse chapéu, ele não é um elemento mágico, ele não é sequer citado mais de uma vez na história, o que ele faz apenas é identificar a menina. Por que tamanha importância, então? Por que tanta ênfase em sua cor? Seria uma forma de representar a transição de uma moça, o símbolo é a menstruação, o que a torna de menina uma mulher.
Como uma jovem mulher, em tal época, chapeuzinho seria algo desejável, então sua mãe diz “não vá pela floresta” porque o perigo existe lá. A floresta seria a curiosidade, o que indica aventura em quase todos os contos. Mesmo sabendo do perigo, Chapeuzinho vai por lá, e não satisfeita, conversa com o primeiro estranho que encontra. O Lobo são os males que existem na floresta, não só o lobo, mas os ogros e as bruxas também costumam morar em florestas. O desconhecido assume a figura de um lobo porque mais a frente veremos que tem uma conotação sexual.
Reparem que ao chegar na casa, Chapeuzinho Vermelho estranha a avó, mas seus direcionamentos não são aleatórios. Primeiro, tem que ficar nua para entrar debaixo dos lençóis. O ato de jogar as roupas no fogo,  na chama, que normalmente nos liga a sexo, como “chama da paixão”, “me acendeu uma chama” quando queremos eufemizar a palavra “excitado”. Em algumas versões, após jogar as roupas no fogo, Chapeuzinho quer urinar. A vontade de excretar pelos genitais está completamente ligado ao sexo, principalmente à masturbação feminina. E os diálogos, não apenas direcionados, mas repetitivos. A repetição sugere sexo também, como a penetração – o vai e vem-, ou a estimulação clitoriana que se trata de repetidos movimentos para que possa se chegar ao ápice.

“Seus olhos grandes”, o lobo que observa a menina nua com desejo, suas mãos grandes, a vontade de apalpá-la, e a boca grande que a comeu – que a pôs para dentro. Daí, o caçador.

Será que ele seria apenas uma esperança? Veja que ele foi colocado de uma forma absurda no conto, cortou a barriga do lobo para salvá-la invés de tê-la salvado antes que o lobo a devorasse. Esta compilação dos irmãos Grimm, também a mais famosa, surgiu na época da revolução industrial que teve seu início na Inglaterra, e mais tarde, na Alemanha. Na revolução industrial foi necessário que as mulheres passassem a trabalhar, a mão de obra feminina era mais barata, muitas vezes fazendo o homem assumir papéis na família que não tinha antes (isto é, no sistema feudal), como ajudar a educar as crianças. O caçador é a figura masculina do pai que, como Freud descreveu a função do pai na relação entre mãe e filhoé de separação, é uma pessoa que separa o filho da mãe, ou seja, faz com que a criança repare que ela e a mãe não são uma só pessoa, mas duas, é o ser que trás a realidade à tona, sendo materializado (concreto) ou não(ideia de pai).

O caçador corta a barriga do lobo para tirar o que ele pôs para dentro. A simbologia da fase oral e anal, por para dentro e para fora, conhecer e reproduzir.
Hoje, com polícia, outra visão de família, um sistema político-econômico e social completamente diferente, espaço físico quase oposto (para quem mora na cidade), ainda sim as crianças se identificaram com os contos devido aos seus conteúdos simbólicos. Não importa a época, nos acessam por se tratar da infância, da natureza humana, da curiosidade, conhecimento e reprodução, base.

Claro que existem outras interpretações possíveis para esse conto, mas por hoje utilizo uma interpretação Freudiana minha como base.

Para quem gosta de contar história para crianças, gostaria de lançar uma desafio. Conte este conto, Chapeuzinho Vermelho (pode ser a versão bonitinha adaptada para nossa época mesmo), para uma criança de preferência de forma dialógica e se puder traga nos comentários a experiência.
Também postado no Livros Abertos
 
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A adequação que discrimina

Vamos pegar o ser-humano, colocá-lo em potinhos e rotular cada um. Se você tá nesse grupo, não pode sair. Aliás, para ficar mais “adequado”, vamos criar diferentes nomes para todos os tipos de preferência, vamos diferenciar o binário do não-binário para “adequar” a todos uma visão de mundo. Vamos criar terceiros banheiros para que todos se sintam mais “confortáveis”, assim não dá briga. Vamos criar um vagão separado. Afinal, segregação resolve o problema, né?

Pois é, isso foi o que pensei quando vi esse quadrinho aqui.

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Rótulos, precisamos deles para quê?

Em uma sociedade onde a relação homoerótica é mal vista – apesar de ser algo natural, contudo moralizado por uma cultura como certo ou errado -, é saudável criar um rótulo com o intuito de auto-afirmação. O mesmo com negros, dizer “tenho orgulho de ser negro” em uma sociedade racista é muito importante, ou quando as mulheres cisexuais dizem que elas são suas vaginas em uma sociedade misógina, ou as trans argumentam que órgão sexual não define em uma sociedade categorizadora por gênero binários. Sim, isso é legal.

Mas, quando se cria categorias e subcategorias separando o ser humano com rigidez, do tipo “isso só procura isso”, “aquilo só procura aquilo” e afins, deixa de ser um rótulo de auto-afirmação para ser uma segregação não saudável.

Em primeiro, o que me chamou a atenção foi que esse quadro foi compartilhado por uma transexual. Até ontem, eu entendia que as trans lutavam pelo direito de serem vistas como mulheres, apenas. Não como uma mulher trans, mas uma mulher. Obviamente que mulher trans é diferente de mulher cis, pois ambas lutam por muitos direitos diferenciados(a trans, repetindo, luta para ser vista apenas como mulher). Então como me vem ela compartilhar uma tira que diferencia sexualidade por preferências ou atrações que segregam binários de não binários?

“A orientação sexual de uma pessoa indica por quais gêneros ela sente-se atraída, seja física, romântica e/ou emocionalmente. Ela pode ser assexual (nenhuma atração sexual), bissexual (atração pelos gêneros masculino e feminino), heterossexual(atração pelo gênero oposto), homossexual (atração pelo mesmo gênero)3 ou pansexual (atração independente do gênero).”(wikipédia, Escala Kinsey)

Para mim, uma pessoa que fala “só me sinto atraída por mulheres cis” ou “só por mulheres trans” tem uma falta de entendimento do que é o feminino, uma fetichização ou um preconceito, não uma orientação sexual pronta que diferencia uma coisa que não deveria ser diferenciada. Vou repetir, rótulos servem para autoafirmação, não para categorizar o ser-humano. A sexualidade é a expressão  do ser em relação ao “objeto” de desejo, e segundo a escala kinsey(a qual eu estudei para escrever esse texto) ela varia. Não do tipo “acordei e sou gay”, mas que podemos desejar além do “homem, mulher, pessoa que não se identifica com gêneros/ binários e não binários”, o título serve só para autoafirmação(como já repeti trezentas vezes) em uma luta de aceitação em um grupo entre outros, não para segregar afirmando que o ser humano é algo cartesiano e a natureza é rígida, e somos formados por regras biológica e os carai.

Conforme andamos, avanço para mim seria a abolição de termos, sermos tão entendidos de gênero e sexualidade que apenas namoramos, sem títulos nem nada. Chegar uma época que ninguém precisa mais se autoafirmar porque vamos estar todos entendidos. Quando me deparo com uma lista que diferencia tudo de todos e gente que necessita desse tipo de rotulação para se expressar, vejo que talvez estejamos mesmo longe da ideia de avanço que eu tenho.

5 dicas de iniciação para o “mundo da maquiagem”

Tava conversando com umas colegas de conversação de japonês um dia desses, e descobrimos algo em comum: somos da transição ex-adolescentes odiadoras da ditadura da beleza para adultas telespectadoras de Rupaul. Em outras palavras, iniciamos agora no mundo da maquiagem.

Como todo iniciante, causamos diversas garfes, gastamos toneladas de dinheiro em coisas que jamais usaremos e tivemos gastrite de tanto testar coisas até chegar em um ponto que queremos. Devido a isso, decidi fazer um post de coisas que eu queria que alguém tivesse me dito antes de eu sair empolgada comprando produtos e acessórios feito louca pra depois cair em desespero do tipo “por que eu não usei a ferramenta mágica chamada google antes de passar o cartão?”

1 – SE CONHEÇA

Achou que era pesquisar, né? Antes disso, é importante você sabe o que vai pesquisar, senão vai ser porco procurando resto em lavagem. Antes de tudo, verifique a textura da sua pele,  todas as tonalidades de manchas possíveis que você tenha se é oleosa, se é seca, porque tem materiais certos para ambas. Seu tipo de rosto: oval? redondo? O contorno para rosto mais longo, qual é? Quero disfarçar isso e aumentar aquilo, como faz? Minha cor é quente ou fria? E se eu for mais magra? O que é pincel chanfrado? Pra que serve o blush? O que fica melhor no meu tom de pele? Tem mil blogs falando sobre tudo isso. Você tem que ver exatamente do que necessita pra não sair comprando coisa que você nunca vai usar.

2 – P-E-S-Q-U-I-S-E

Sério, isso parece básico, mas incrivelmente a maioria das pessoas não fazem isso. Quando eu falo pesquisas, nunca é por preço, não caia no “mais caro melhor” never! Isso é uma mentira absurda, sou a pessoa IDEAL para falar isso, sério. Evite seguir dicas de compras de vlogueiras de maquiagem, porque elas estão sendo pagas para falar bem da marca. Procure opiniões de blogs antigos, ou maquiadores, amigas, pessoas próximas. De qualquer forma, a consulta, isso é, a experiência infelizmente é fundamental. Pode ser que você ache bom uma coisa que fulana acha péssima e vice-versa. Depois de anotar tudo sobre sua pele, consulte o que é bom para os problemas que você tenha, o que quer disfarçar etc e etc. Lembre-se sempre também de ir ao reclame aqui para ver quem odiou os pincéis ou as makes de quais marcas, e contribua também caso não goste.

3 – Nunca compre paleta de pincel completa

Essa dica teria sido maravilhosa se alguém tivesse me dado no início. Você não é maquiador profissional, você quer apenas dar um up no visual, não precisa de 300 pinceis para isso. Sério, se tu comprar uma paleta de 24, só vai usar 1 terço, porque o resto não tem utilidade alguma, lembrando que tem muitos que tu não sabe nem para o que serve. Compre pincéis separados, acredite, tu vai usar cinco no máximo, e se tu não viver muito pelo na sobrancelha(como o meu caso), só 4 é suficiente. Você vai usar: um para base(língua de gato ou duo fiber – base cremosa – ou kabuki  ou uma esponja – ambos pode ser cremoso ou em pó-, vai depender da sua preferência), uma para corretivo(eu uso língua de gato pequeno, mas tu pode usar até o dedo pra essa merda que tanto faz, as vezes o dedo até espalha melhor porque a aplicação é em local específico, sem contar que a maioria dos corretivos são em bastão, então muitas vezes nem pincel tu precisa), um pincel para aplicar pó(fazer iluminação/sombra) – tem um esfumador, mas eu acho inútil, só tu esfumar com as digitais que dá mesmo efeito -, um para blush(é um curvadinho, mas muitas vezes o blush já vem com pincel, então veja se você vai mesmo precisar), dois para os olhos, o de esponja pra aplicar(digital…) e o chanfrado pra esfumar(esse a digital não faz bom trabalho), se tu tiver sobrancelha peluda, o penteador, do contrário cabou, fí. Normalmente os quites tem de boca(tu nunca vai usar), de cílios(só pra encher linguiça), leque(tu não vai nem saber o que fazer com isso), e um milhão de olhos que na boa, despreza. Dica: sempre faça as sobrancelhas, depois os olhos e por último a pele(neutralização, base, correção, coloração, iluminação e sombra), porque o leque não limpa nada, só macha, e o leque só limpa pó, se tu deixar cair delineador vai ser uma úlcera tremenda.

4 – Quanto a blogueiras/vlogueiras de maquiagem

Tem gente que segue tutoriais como se fosse religião, o que aquela moça ou moço lançou, tu já vai testar. O problema é, você precisa disso? Para que você quer aprender? Verifique antes para que serve a técnica que ela usa. Lembra quando linha mágica virou febre? Mil tutoriais dizendo “vamos ensinar o que kardashian nos ensinou”? Pois é, vi um monte de gente indo atrás disso, vendo blogueira explicando o quanto a vida dela mudou fazendo isso, gente reclamando que não estava parecido com a Kardashian(oi?), gente que sequer sabia o que era contorno e etc. Então, essa técnica é usada desde que a tv ganhou cores, e esse contorno é aderido apenas a ensaios fotográficos, ou eventos que utilize de câmeras profissionais(formatura e etc), em outras palavras, não é contorno de dia a dia, e não é a mesma lambança pra todos os tipos de rosto. Pesquise bem o que ela tá ensinando e veja se está conforme suas necessidades.

5 – Estude bem.

Leia sobre técnicas relativas ao seu tipo de necessidade. Círculo monogromático, iluminação e sombra, sempre bom está antenado quanto a isso, pois metade da make é preparação da pele. Se tu sabe neutralizar e corrigir bem, tu tá feita. Tenta ver tuto de outras nacionalidades, eu adoro tuto de mulheres americanas, porque normalmente só tem material americano para mulheres negras. Se você for uma mulher mais velha, siga mais mulheres mais velhas, siga tutos semelhantes as suas necessidades. E para estudar iluminação e sombra, siga tutoriais de drag queens ou make artística, eles super ajudam.

Fontes: http://www.makebela.com.br/tipos-de-pincel

http://www.garotasestupidas.com/

Sobre Rupaul, o racismo e a gordofobia dos fãs brasileiros

Não é segredo algum que minorias amam oprimir umas as outras no Brasil, como já comentei em “Olimpíadas da opressão – Dor não é privilégio“. Não é novidade, já que muitas minorias sequer se reconhecem como minorias – muitas vezes -, por causa disso acabam reproduzindo preconceito até com seus próprios, preferem não se assumir ou aceitar concessões, como prometer aos seus senhores que existirão, mas ficarão apagados, e quem não fizer o mesmo merece ser punido. Ninguém entende que minorias só vencem unidas e bem entendidas de si frente ao que são, não ao que o “alvo” tenta empurrar. Podemos utilizar os longos casos de haterismos que ocorrem desde a segunda temporada, com a vitória de Tyra Sanchez, ou a implicância com Shangela Laquifa. Também podemos citar os cutuques das próprias queens em cima da Mystique, reprovações em cima da Coco Montrese e julgamentos mesmo cientes da edição pesada com a Mimi I’m first. Mas quero focar na sétima temporada, já que a Ginger Minj fala bastante sobre isso. Brasileiro adora pagar vexa. Sobem tagzinhas toscas no twitter para tirar fulano ou fazer voltar ciclano(mesmo sabendo que já foi quase tudo gravado), ou pior, vi ABAIXO-ASSINADO para que a queen X saísse do programa. Pois é, nem o avaaz foge dos br. Se vamos falar sobre racismo, nunca se reconhecem pois ser racista é feio. Tentam defender até tokenizando aquele namorado, amigo, parente, colega, cachorro, cavalo como “argumento”. Ou pior, citam exemplos extremos ou claramente fora de contexto para provar que não é nada daquilo, que eu, pretinha, que quer fazer parte de uma minoria para se ter pelo que lutar(e pasmem, muitas vezes quem diz isso é negro. Sai dessa vida de capitão do mato, obrigada), que eu vejo as coisas nas coisas. Independente da sua hipocrisia, vou continuar apontando racismo onde tem sim, e você que me engula, ok? E a Delta Work? E a Victoria? E fulana? E ciclana?”. Sabe quando uma pessoa fala “sou contra pena de morte” e me vem uma pessoa falar “e se fizessem algo com seu filho? seu pai, e alguém da sua família? seu gato? cachorro? blá” ou  mais épico “não sou racista, todos da minha família amam minha empregada, e ela é negra DA RAIZ” é a mesma coisa! A Latrice era um amor de pessoa, e dublava pra caralho. Se ela viesse com shade, NINGUÉM gostaria dela. Ninguém, absolutamente ninguém torcia pra ela ganhar, era tipo “gosto dela, quero que ela vá pro top3, mas quero que fulano ganhe”. As pessoas gostavam dela porque ela estava “no lugar dela”, ela tava sendo 100% agradável, deixa essa pretinha aí porque ela não tá incomodando. Delta Work era uma Heather, grupinho amado pelos fãs, e ainda sim ela era mais atacada que qualquer outra dentro do meio(levando em consideração que a Manila e a Raja eram bem mais cheias de shade que ela), daí ela pode fazer shade que vai ser diva, era uma protegida, né. E a Vitória, preciso mesmo falar? Ela participou de um único capítulo, melhorem. Descobri a pouco tempo que a STACY era cheia de hater. Tipo, ela nunca falou nada, mas era odiada. Chamaram a Ginger e a Kennedy como casal de invejosas só porque elas falam que não gostaram de um certo look, ou da atitude de um certo alguém na prova. Por que elas são invejosas? Ate onde eu sei, elas foram as que mais ganharam desafios… Deve ser porque elas não estão no lugar delas, né? Não são gordas omissas, são gordas que criticam o sistema gordofóbico que tem no mundo da moda. Se as roupas delas ficassem em qualquer outro alguém, ganhariam elogios, isso é óbvio. E a Kennedy é duplamente odiada, sendo que ela ainda é mais omissa que a Ginger e tem menos shade, nem imagino porque ela é duplamente odiada… Nem passa pela minha cabeça o motivo… Já criticaram a postura da Kennedy Davenport por fazer um “homem” no snatche game, e até citaram “mas a Alaska foi criticada por se vestir de homem!”, e toda baboseira falando que ela é protegida do Ruapaul(mesmo que tenha sido umas das poucas a ter feito a galera rir) e etc. Considero essa comparação errada. Como a própria Kennedy já disse, Little Richard era “andrógino”, uma moda nos EUA semelhante ao glam(que veio muito depois), ele usava batom, lápis de olho e tudo mais. Quase um tipo de cross dresser, que mais a frente(nos anos 80) o estilo andrógino VIROU um crossdressing, tendo como estouro o Boy George. Ou seja, fazer Little Richard não é fazer qualquer homem, fazer o Litlle Richard é QUASE equivalente a fazer a Alyssa Edwards ou a Sharon Needles. Aí me perguntam, ah, mas Alyssa e Sharon são alters, o foco tá na versão feminina deles. Então a Jessica Wild imitar o Rupaul também cairia em contradição, porque apesar do alter dele levar a fama, ele é tão caricato que se é reconhecido por sua versão masculina também. Tanto que a Milk foi considerada genial por muitos(até pela Vissage, olha que milagre), não criticada ou comparada a segundos ou terceiros. Já tão tokenizando a Adele, já que Ginger deu exatamente o que os americanos querem: piada de esteriótipos.  Ela se gongou por ser gorda no programa, e ganhou a prova conforme esperava. Tão chamando isso de contribuir com a gordofobia porque querem eximir-se da culpa, fingir que o problema não existe e que ele “não é preconceituoso, mas”. Amor, uma minoria que oprime outra é pior que o Bolsonaro, uma que isenta-se da culpa dizendo que ela não existe é menos ainda. Ela se gongou porque deu o que eles queriam, não significa que ela goste de ser zoada involuntariamente.  Uma coisa é eu falar da minha mãe, outra é os outros falarem. Eu posso, você não. Até a Jaddyn que é “fofa” já tão falando que ela é muito “mimi”, concordo. Mas e a Pearl que é tão mimi que até as queens ficam revoltadas com ela? Com essa mania de “quero ir pra casa”, “não aguento mais”, blá blá. Na boa? Chegou a um ponto que os preconceitos não estão mais velados, mas óbvios.

Podemos contar nos dedos a lista de odiadas, quantas negras e gordas ela possui e comparar com a lista de negras e gordas amadas. E também podemos contar a lista de pessoas que jogam shade, quem é amada por isso e quem é odiada.

Fora do programa, a mesma atitude também tem diferentes lados. A Jasmine Masters fez comentário transfóbico, e foi xingada no reddit. Ela gravou um de 10 minutos pedindo desculpa, e explicando que ainda não entende essas coisas(se você não for trans, vai saber que já cagou pela boca também por falta de conhecimento do assunto) e a galera continuou com ódio dela e fazendo todo tipo de bullying, inclusive sendo racista(parabéns pra você que só reconhece uma minoria se faz parte dela ¬¬’). Violet Chachki postou um vídeo transfóbico e quando as trans foram lá reclamar e ela além de não ter tido a humildade de pedir desculpas, ela ainda enfrentou as gurias e foi chamada de “diva” por isso. Sem contar o tweet racista que ela fez comparando a Jasmine ao Donk Kong, depois só apagou e falou “desculpa pelo vacilo”. Fim. Ela tá sendo a mais cotada para ganhar apesar de só ter look e visual, não tem um pingo de versatilidade, mas como a Ginger e a Kennedy tão recebendo muita rejeição, a Ru provavelmente vai aderir aos racistas e transfóbicos fãs dela. Uma pena, Tyra Sanchez versão branca e amada por todas(pleonasmo), e racista e tranfóbica.

Dica para as meninas da season 8: se você for gorda ou negra, seja um amor de pessoa, não critique nada que você achar feio ou sem graça, jamais fale da atitude de uma queen para com você. E não se esqueça, shade é pras branca magra, ok? Elas são amadas por isso.

Olimpíadas da opressão – Dor não é privilégio

Quando minorias brigam entre si para ver quem sofre mais é titulado de olimpíada da opressão.

Atualmente, na internet principalmente, as pessoas têm confundido privilégio com “menos sofrimento”, o que causa tal “fenômeno”. Claro que não são grupos que se digladiam, mas pequenos elementos que infelizmente não compreendem do que se tratam suas lutas, ou estão tão sobrecarregados com a vivência que passam a analisar o lado errado da moeda para argumentar: comparar as dores para dizer quem é “privilegiado”.

Privilégio: s.m Vantagem atribuída a uma pessoa e/ou grupo de pessoas em detrimento dos demais.

Em outras palavras, privilégio não é menos sofrimento, e sim não sofrer. Como diz o dicionário, é a VANTAGEM daquele grupo, o que aquele grupo tem que faz com que ele não seja tão oprimido quanto o outro.

Socialmente falando, é óbvio que existe uma pirâmide de oprimidos, assim como dentro de grupos ideológicos também. Mas o que torna as pessoas privilegiadas não são as dores delas, mas vantagens que elas possuem por não estarem inseridas no mesmo grupo que outros do seu meio. Por não focar nisso, grupos dizem que outros são vitimistas em relação a eles e fazem comparações dessa natureza para ver quem sofre mais:

Sem contar que a informação é inverídica. Mulheres cis sexuais morrem por serem mulheres TODOS OS DIAS. Reveja seus conceitos, parça

Sem contar que a informação é inverídica. Mulheres cis sexuais morrem por serem mulheres TODOS OS DIAS. Reveja seus conceitos, parça

É válido utilizar da misoginia, do racismo, da transfobia para representar um grupo? Enforcar um oprimido para representar outros?

Apropriação cultural para falar de feminismo, moça?

Apropriação cultural para falar de feminismo, moça?

E as assexuais? E as lésbicas? E as que não querem homens? Mulher é moeda de troca agora?

E as assexuais? E as lésbicas? E as que não querem homens? Mulher é moeda de troca agora?

Quando se pratica olimpíadas da opressão, se desvia o verdadeiro foco: a liberdade do sistema imposto pelo topo da pirâmide.

Rico numa sociedade capitalista. Como o senhor sofre, ein?!

Rico numa sociedade capitalista. Como o senhor sofre, ein?!

Você quer liberdade da pirâmide, e não a aceitação do topo! Você não vai falar “por favor, homem heterossexual, me aceite, odeio mulheres, tenho nojo de vagina, não sou ameaçador”, “Por favor, mundo branco, me aceite, sou contra cotas, negro cotista é vagabundo, viva a meritocracia”. A ideia é que essa pirâmide seja destruída, mas se você passa a negar dores de outros oprimidos, seja em pról de aceitação do topo da pirâmide, ou pra mostrar que você está abaixo, não ajuda. Lembre-se de reconhecer VANTAGENS, não negar o sofrimento do outro grupo ou dizer que a vítima é vitimista. É muito feio só se reconhecer a minoria em que se está inserido, ou querer ditar o que o outro tem que sentir ou como agir, falar por eles..

Recapitulando, existem minorias dentro de minorias, mas se vamos argumentar, que utilizemos a tese certa. Falemos das reais vantagens daquele grupo, não ficar pontuando dores, e dizer que ser queimado em óleo quente o torna privilegiado, pois pior é estar sendo queimado pelo fogo. Isso não só gera discursos falaciosos – e horríveis -, mas também falta de sororidade, que é fundamental. Minorias, se unam, e fiquem a vontade para criticar privilégios, sim. Mas lembrem-se, PRIVILÉGIOS, não olimpíadas da opressão.