Projeto Compilações da Disney, fábulas e contos de fadas

Todos sabemos que por trás das versões atuais de contos de fadas, como as compilações da Disney(mais conhecidas), um lado obscuro com questionamentos acerca da sua infantilidade são discutidos. Um tema bastante abordado por pessoas curiosas ou que gostam desse tipo de desmistificação infelizmente possuem bastante informações omitidas, confusas e muitas vezes até irreais. Observei que em bastantes sites que falam sobre os contos da Disney e sua “verdadeira versão” apagam diversas informações que geralmente se tornam erradas, não entendendo o que se passa ou desmistificando algo com outro mito.

Devido a isso, resolvi construir minha análise citando todas as fontes para ficar o mais limpo possível e me embasando principalmente em desmistificar não o conto, mas as mentiras que pregam sobre eles, ou informações errôneas espalhadas na internet.

Os contos de fadas europeus que temos são histórias orais muito antigas, quase míticas, semelhantes em várias culturas, até mesmo as não-europeias(lendas indígenas brasileiras, milenares japonesas – romances por escrito, inclusive, que fazem referência a muitas dessas histórias que conhecemos, outros escritos gregos e egípcios muito anteriores ao nascimento de Cristo). Ou seja, inevitável existir versões para adultos, para crianças, para crianças exclusivas da cultura X, ou da época Y. Em outras palavras, esses contos da Disney ou de outras editoras que resolvem compilar NÃO SÃO INVÁLIDOS. A Disney nada mais faz que se apropriar, ou apenas se inspirar(como Frozen), o mesmo outras muitas indústrias midiais, nessas histórias passando a frente, adequando à geração atual, ou criando histórias que se enquadrem nos padrões de uma certa cultura, sem perder o contexto ou aquela moral, caso exista.

A primeira compilação européia(CONHECIDA) escrita de conjunto de contos de fada INFANTIL foi o livro do francês Charles Perrault Contos da Mamãe Gansa no século XVII que SIM, era para crianças. Uma das grandes mentiras que espalham na internet é que esses contos não eram infantis. Como eu disse no início, contos orais possuem várias versões que se adequam a vários públicos. A primeira compilação escrita popular da qual a Disney obteve inspiração era para crianças. Apesar de alguns pontos macabros em contos, como Chapeuzinho vermelho ou Barba Azul, certas atrocidades em histórias era considerado didático na época, pois a galera vivia no meio do mato, não tinha polícia, tinha animais selvagens em volta entre outros perigos, logo parte da educação era pelo medo. Se você tiver nascido antes dos anos 2000, sabe quando criança tinha medo de fazer algo errado porque cintas iriam rolar? Mesmo esquema, mas desta vez, se fosse pra floresta você seria devorado pelo lobo. Só isso. Metáforas a parte para perigos tão ruins quanto, como estupro por estranhos na floresta. Hoje em dia, para educar, é estranho até pais baterem em crianças – dependendo de como bate, é até crime(não rola mais cintadas para seus filhos) -, então desde a época da Renascença/Idade Media(época que as compilações de contos orais foram registrados), até os anos 2000 e posterior a isso, culturalmente como se criar uma criança foi mudando, até porque os perigos, ou as manifestações deles, mudaram. Muitas versões da Mamãe Gansa vem inclusive uma moral embaixo em forma de canção trovadorista, esclarecendo também metáforas – indiretamente – que aquele conto poderia possuir.

Outras compilações que também se tornaram populares foram as dos Irmãos Grimm e algumas de Hans Christian Andersen(que fazia muitas fábulas originais conhecidas, também) no século XIX, ambas para crianças também. Inclusive, muitos contos dos irmãos Grimm suavizam uns compilados por Charles Perrault trazendo finais felizes para muitos – Chapeuzinho vermelho, por exemplo. Conforme as épocas passam, populariza-se os mesmos contos mas mais enquadrado na certa cultura, no pensamento daquela época, com a Disney não é diferente.

Então? Cadê a Bela adormecida estuprada? Cadê a Chapeuzinho vermelho canibal? São simples creepypastas? Não. Como eu disse, existem várias versões, e essas mais famosas são feitas para crianças. Isso não significa que não existiram compilações de contos orais para adultos também. Foi escrito por Maria Tatar versões dos contos orais famosos no século XIX (quando as versões dos Irmãos Grimm e Charles Perrault já eram populares), estando presente Chapeuzinho vermelho – versão canibal, mas com o final mais ou menos feliz(vou falar sobre Chapeuzinho vermelho mais afundo) e muitos outros contos de fadas sem nenhuma moral da história, preocupação pedagógica, materna ou suavidade nos pontos grotescos. Outra compilação que ficou popular entre “desmistificadores” e creepypastas na internet foi a versão da Bela adormecida estuprada que sim, é real, contudo, também é uma compilação ADULTA, e não para crianças. Chama-se ” Sol, Lua e Tália” por  Giambattista Basile no século XVII, presente no livro de contos chamado “Pentamerão”, antes da versão de Charles Perrault. O que se define aqui como “para criança” não é a idade, pois 16 anos, por exemplo, não era considerado criança para eles. Quando digo “para criança” me refiro a ter uma “moral da história”, um fundo materno pedagógico, apesar de tudo. Vir primeiro significa ser “a original”? Não. Como eu disse já três vezes, mas vou repetir para que fique fixo, são contos orais que possuem diversas versões que ao serem transcritos são direcionados a públicos. Essas pessoas não são donas desses contos, eles não foram criados por pessoas conhecidas, foram desenvolvidos em cima de mitos/lendas em rodas trovadoristas(até antes do que isso).

Como fontes para os estudos, usarei Os contos de Grimm volume I e II da L&PM, Contos da Mamãe Gansa de Charles Perrault da L&PM, e outros contos populares de compilações e originais que inspiraram a Disney de Andersen, La Fountaine, Madame D’aulnoy e os romances de Lewis Carrol, Victor Hugo(agora sim, o corcunda de Notre Dame não é para criança), Charles Dickens e etc. Fontes para guia, usarei “Fadas no divã”, “Psicanálise dos contos”, alguns textos de arquétipos Junguianos, capítulos de Raízes históricas do conto maravilhoso e Morfologia de um conto maravilhoso de Vladmir Propp. Não tenho uma lista, um top para começo ou algo assim. Minha intenção não é fazer uma análise comum de contos, mas tentar “corrigir”(lembrando que EU TAMBÉM posso estar sujeita a falhas) certas informações erradas ou omitidas que vejo na internet sobre as obras da Disney e outras histórias que chegam a nós.

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