Glamurizar a tristeza dá câncer

Quando se pensa em morte, se pede ajuda mas ninguém parece se importar, a dor permanece crescendo de forma gradativa, tão lentamente que não se repara, só cai a ficha ao não se conseguir mais suportar.
Quando pensa em recorrer ao suicídio, mas algo impede, então se permanece maquiando essa situação, e a dor continua crescendo, lento, mas sem parar.
Se quer tanto a morte que suicídio torna-se extravagante, o corpo por si só se destrói, a pessoa, sem intervenção, não passa de um mês, ela finaliza anos de dor em um mês sem mover um músculo. Viver sem vitalidade é quase como estar no meio termo, seu corpo funciona, mas sua mente não, só se sabe que está vivo quando se está literalmente morrendo.
Foi essa a minha relação com o câncer.
Durante muito tempo sofri com depressão, mas sem diagnóstico médico – como se fizesse diferença – e muitas experiências novas surgiram em um período minúsculo de tempo e eu não sabia como lidar com isso. Em relatos da literatura brasileira, romancistas que morreram “por amor” ou “de tristeza” tinham os mesmos sintomas do tipo de leucemia que eu tive. Como surpresa, a maioria já tinha histórico de glamurizar a tristeza, rejeição aos pedidos de ajuda e eram antissociais, também não sabiam como se relacionar com experiências e os próprios sentimentos. Recusavam o suicídio por medo de um final pior (o inferno) e sangravam até a morte como resultado de tudo.
Quando se tem câncer você sente que está morrendo, eu mesmo perdi toda a energia de até mesmo andar em menos de uma semana, sangrei sem parar em duas, não conseguia mais sentir prazer com o que me alegrava bem no limite. No tratamento da quimioterapia, seu corpo não sabe se aquele remédio quer te matar ou te salvar, ele é a esperança mas se morre tentando se adaptar a ele.
Desisti da morte no momento que eu vi que tinha a escolha. Eu estava no poder, eu que decidiria se deixava me levar ou se saía dessa . Eu tinha tantos planos em mentes, minha família estava fazendo tanto por mim, pude me desculpar de tantos erros que não me senti digna de morrer com uma doença que dependia mais de mim do que de qualquer coisa. Eu não parava de rezar, fazia-o tantas vezes, a cada minuto e só pedia uma coisa “me dê forças para suportar a dose que me mata, mas vai me salvar”.
Atualmente trato do meu problema de não conseguir me relacionar com as minhas emoções, e aconselho a todos que passem por isso a fazerem o mesmo, e não glamurizarem a tristeza mais, isso é realmente grave. Mais o maior conselho é para quem não acredite que a tristeza pode matar, cuidado, não queira vem quem ama em uma cama na UTI agonizando com uma quimioterapia ou em coma induzido para conseguir completar o tratamento, minha família saiu dessa tão lesionada quanto eu.

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