Compilações da Disney (Parte I) – Hua Mulan

Popular devido ao filme da Disney, Mulan é a segunda protagonista não caucasiana dessa indústria(primeiro princesa Pocahontas, uma índia-americana – Jasmine, que é árabe, não é protagonista, logo não conta). Com uma linda história de uma jovem que não tem condições necessárias para ser uma esposa típica chinesa por ser brutona, um dia numa convocação de guerra contra os mongóis, resolve se travestir para poupar seu pai velho e fraco de ir. Com cenas dramáticas no decorrer do filme como quase ser morta pelo general Shang – também seu amor – ao ser descoberta mulher, volta para casa sem “honra”(que eles tentam mostrar como algo importantíssimo na cultura asiática), mas ao descobrir o plano dos mongóis em matar o imperador, consegue a confiança de uma parcela de soldados e torna-se líder do exército, vencendo a guerra, ganha admiração do imperador que se curva para ela juntamente com a China toda. Shang a leva para casa e ela oferece um “café” para ele. Enfim, ela não casa, mas é aceita como é – porque salvou a China também, claro -, dá a entender que ela vai ficar com ela, etc.

O filme da Disney foi baseado na obra A Balada de Mulan, composta no século VII na Disnastia Tang que se perdeu quase toda. Atualmente, preserva-se uma versão posterior em cima das sobras, incluída em uma antologia de poemas líricos e baladas compilada por Guo Maoqian no século XI e XII. Discute-se até hoje se Mulan existiu ou se é apenas uma lenda.

A parte de ela ser brutona ou querer casar mas não conseguir atingir os necessários para ser uma boa esposa chinesa, pedir ajuda aos ancestrais e o dragãozinho(que é quase mais destaque do que ela pela simpatia) ensina-la a ser uma guerreira é tudo invenção da Disney. Como sabemos, eles apenas se inspiraram na história, não passou a frente(na verdade, a maioria dos filmes sobre Mulan são apenas baseados, porque sobrou muito pouco de seu poema). Mas isso não é o mais importante. Shang não descobre que ela é mulher daquele jeito, nem tenta matá-la. Na verdade, não existe Shang. Na versão original que sobrou da balada, ela ganha a guerra e o imperador realmente oferece o que ela quiser, mas ninguém sabe ainda que ela é homem. Daí ela diz que apenas quer ser levada para casa. Alguns guerreiros a leva para casa, lá no quarto dela ela se produz toda no conceito, sai do quarto como uma linda moça e a galera se assusta tipo “Meu companheiro de guerra era uma mulher ou é uma mulher?”. Dando a entender pela metáfora da lebre que para eles isso seria eternamente uma incógnita devido à sua liberdade, referenciando ao conceito semelhante a transexualidade e o contato disso na época.

Projeto Compilações da Disney, fábulas e contos de fadas

Todos sabemos que por trás das versões atuais de contos de fadas, como as compilações da Disney(mais conhecidas), um lado obscuro com questionamentos acerca da sua infantilidade são discutidos. Um tema bastante abordado por pessoas curiosas ou que gostam desse tipo de desmistificação infelizmente possuem bastante informações omitidas, confusas e muitas vezes até irreais. Observei que em bastantes sites que falam sobre os contos da Disney e sua “verdadeira versão” apagam diversas informações que geralmente se tornam erradas, não entendendo o que se passa ou desmistificando algo com outro mito.

Devido a isso, resolvi construir minha análise citando todas as fontes para ficar o mais limpo possível e me embasando principalmente em desmistificar não o conto, mas as mentiras que pregam sobre eles, ou informações errôneas espalhadas na internet.

Os contos de fadas europeus que temos são histórias orais muito antigas, quase míticas, semelhantes em várias culturas, até mesmo as não-europeias(lendas indígenas brasileiras, milenares japonesas – romances por escrito, inclusive, que fazem referência a muitas dessas histórias que conhecemos, outros escritos gregos e egípcios muito anteriores ao nascimento de Cristo). Ou seja, inevitável existir versões para adultos, para crianças, para crianças exclusivas da cultura X, ou da época Y. Em outras palavras, esses contos da Disney ou de outras editoras que resolvem compilar NÃO SÃO INVÁLIDOS. A Disney nada mais faz que se apropriar, ou apenas se inspirar(como Frozen), o mesmo outras muitas indústrias midiais, nessas histórias passando a frente, adequando à geração atual, ou criando histórias que se enquadrem nos padrões de uma certa cultura, sem perder o contexto ou aquela moral, caso exista.

A primeira compilação européia(CONHECIDA) escrita de conjunto de contos de fada INFANTIL foi o livro do francês Charles Perrault Contos da Mamãe Gansa no século XVII que SIM, era para crianças. Uma das grandes mentiras que espalham na internet é que esses contos não eram infantis. Como eu disse no início, contos orais possuem várias versões que se adequam a vários públicos. A primeira compilação escrita popular da qual a Disney obteve inspiração era para crianças. Apesar de alguns pontos macabros em contos, como Chapeuzinho vermelho ou Barba Azul, certas atrocidades em histórias era considerado didático na época, pois a galera vivia no meio do mato, não tinha polícia, tinha animais selvagens em volta entre outros perigos, logo parte da educação era pelo medo. Se você tiver nascido antes dos anos 2000, sabe quando criança tinha medo de fazer algo errado porque cintas iriam rolar? Mesmo esquema, mas desta vez, se fosse pra floresta você seria devorado pelo lobo. Só isso. Metáforas a parte para perigos tão ruins quanto, como estupro por estranhos na floresta. Hoje em dia, para educar, é estranho até pais baterem em crianças – dependendo de como bate, é até crime(não rola mais cintadas para seus filhos) -, então desde a época da Renascença/Idade Media(época que as compilações de contos orais foram registrados), até os anos 2000 e posterior a isso, culturalmente como se criar uma criança foi mudando, até porque os perigos, ou as manifestações deles, mudaram. Muitas versões da Mamãe Gansa vem inclusive uma moral embaixo em forma de canção trovadorista, esclarecendo também metáforas – indiretamente – que aquele conto poderia possuir.

Outras compilações que também se tornaram populares foram as dos Irmãos Grimm e algumas de Hans Christian Andersen(que fazia muitas fábulas originais conhecidas, também) no século XIX, ambas para crianças também. Inclusive, muitos contos dos irmãos Grimm suavizam uns compilados por Charles Perrault trazendo finais felizes para muitos – Chapeuzinho vermelho, por exemplo. Conforme as épocas passam, populariza-se os mesmos contos mas mais enquadrado na certa cultura, no pensamento daquela época, com a Disney não é diferente.

Então? Cadê a Bela adormecida estuprada? Cadê a Chapeuzinho vermelho canibal? São simples creepypastas? Não. Como eu disse, existem várias versões, e essas mais famosas são feitas para crianças. Isso não significa que não existiram compilações de contos orais para adultos também. Foi escrito por Maria Tatar versões dos contos orais famosos no século XIX (quando as versões dos Irmãos Grimm e Charles Perrault já eram populares), estando presente Chapeuzinho vermelho – versão canibal, mas com o final mais ou menos feliz(vou falar sobre Chapeuzinho vermelho mais afundo) e muitos outros contos de fadas sem nenhuma moral da história, preocupação pedagógica, materna ou suavidade nos pontos grotescos. Outra compilação que ficou popular entre “desmistificadores” e creepypastas na internet foi a versão da Bela adormecida estuprada que sim, é real, contudo, também é uma compilação ADULTA, e não para crianças. Chama-se ” Sol, Lua e Tália” por  Giambattista Basile no século XVII, presente no livro de contos chamado “Pentamerão”, antes da versão de Charles Perrault. O que se define aqui como “para criança” não é a idade, pois 16 anos, por exemplo, não era considerado criança para eles. Quando digo “para criança” me refiro a ter uma “moral da história”, um fundo materno pedagógico, apesar de tudo. Vir primeiro significa ser “a original”? Não. Como eu disse já três vezes, mas vou repetir para que fique fixo, são contos orais que possuem diversas versões que ao serem transcritos são direcionados a públicos. Essas pessoas não são donas desses contos, eles não foram criados por pessoas conhecidas, foram desenvolvidos em cima de mitos/lendas em rodas trovadoristas(até antes do que isso).

Como fontes para os estudos, usarei Os contos de Grimm volume I e II da L&PM, Contos da Mamãe Gansa de Charles Perrault da L&PM, e outros contos populares de compilações e originais que inspiraram a Disney de Andersen, La Fountaine, Madame D’aulnoy e os romances de Lewis Carrol, Victor Hugo(agora sim, o corcunda de Notre Dame não é para criança), Charles Dickens e etc. Fontes para guia, usarei “Fadas no divã”, “Psicanálise dos contos”, alguns textos de arquétipos Junguianos, capítulos de Raízes históricas do conto maravilhoso e Morfologia de um conto maravilhoso de Vladmir Propp. Não tenho uma lista, um top para começo ou algo assim. Minha intenção não é fazer uma análise comum de contos, mas tentar “corrigir”(lembrando que EU TAMBÉM posso estar sujeita a falhas) certas informações erradas ou omitidas que vejo na internet sobre as obras da Disney e outras histórias que chegam a nós.

Glamurizar a tristeza dá câncer

Quando se pensa em morte, se pede ajuda mas ninguém parece se importar, a dor permanece crescendo de forma gradativa, tão lentamente que não se repara, só cai a ficha ao não se conseguir mais suportar.
Quando pensa em recorrer ao suicídio, mas algo impede, então se permanece maquiando essa situação, e a dor continua crescendo, lento, mas sem parar.
Se quer tanto a morte que suicídio torna-se extravagante, o corpo por si só se destrói, a pessoa, sem intervenção, não passa de um mês, ela finaliza anos de dor em um mês sem mover um músculo. Viver sem vitalidade é quase como estar no meio termo, seu corpo funciona, mas sua mente não, só se sabe que está vivo quando se está literalmente morrendo.
Foi essa a minha relação com o câncer.
Durante muito tempo sofri com depressão, mas sem diagnóstico médico – como se fizesse diferença – e muitas experiências novas surgiram em um período minúsculo de tempo e eu não sabia como lidar com isso. Em relatos da literatura brasileira, romancistas que morreram “por amor” ou “de tristeza” tinham os mesmos sintomas do tipo de leucemia que eu tive. Como surpresa, a maioria já tinha histórico de glamurizar a tristeza, rejeição aos pedidos de ajuda e eram antissociais, também não sabiam como se relacionar com experiências e os próprios sentimentos. Recusavam o suicídio por medo de um final pior (o inferno) e sangravam até a morte como resultado de tudo.
Quando se tem câncer você sente que está morrendo, eu mesmo perdi toda a energia de até mesmo andar em menos de uma semana, sangrei sem parar em duas, não conseguia mais sentir prazer com o que me alegrava bem no limite. No tratamento da quimioterapia, seu corpo não sabe se aquele remédio quer te matar ou te salvar, ele é a esperança mas se morre tentando se adaptar a ele.
Desisti da morte no momento que eu vi que tinha a escolha. Eu estava no poder, eu que decidiria se deixava me levar ou se saía dessa . Eu tinha tantos planos em mentes, minha família estava fazendo tanto por mim, pude me desculpar de tantos erros que não me senti digna de morrer com uma doença que dependia mais de mim do que de qualquer coisa. Eu não parava de rezar, fazia-o tantas vezes, a cada minuto e só pedia uma coisa “me dê forças para suportar a dose que me mata, mas vai me salvar”.
Atualmente trato do meu problema de não conseguir me relacionar com as minhas emoções, e aconselho a todos que passem por isso a fazerem o mesmo, e não glamurizarem a tristeza mais, isso é realmente grave. Mais o maior conselho é para quem não acredite que a tristeza pode matar, cuidado, não queira vem quem ama em uma cama na UTI agonizando com uma quimioterapia ou em coma induzido para conseguir completar o tratamento, minha família saiu dessa tão lesionada quanto eu.