Um menino chamado negrinho

O livro da Hellenice Ferreira não trata de nada mais nada menos que a história do Negrinho do pastoreio. Uma criança filha de escravo – o fazendo ser propriedade do homem branco, igualmente – sem nome, apenas invocada como Negrinho por seu dono, ama a vida que leva, pois sua vida se trata de cuidar da sua paixão: cavalos. Um dia, um cavalo foge para a mata por descuido do dono que obriga o menino a encontra-lo, do contrário morreria no tronco. O menino desesperado  orou para Virgem Maria, e ações sobrenaturais ocorreram no mesmo instante em seu socorro, o fazendo ir a mata perigosa na calada da noite para tentar salvar sua vida. O cavalo some de novo, desta vez no meio da neve. Não encontrando o cavalo, o menino vai para o tronco, depois para o formigueiro a mandato do dono e morre por hemorragia e infecção. No dia seguinte, quando um escravo é designado para novo pastoreador, este vai ao pastoreio e lá se encontra a alma do cavalo, a de Negrinho e a da Virgem maria, madrinha e protetora do menino. Segundo a autora, a lenda se passa no Sul do Brasil.

Obviamente o livro não trata a história com tanta brutalidade como a lenda folclórica, mas a história é basicamente isso. Muitos pontos dessa lenda são discutíveis, principalmente pelo fato da primeira copilação ter sido feita por um sulista branco chamado João Simões Lopes Neto em 1800. Pela primeira versão escrita desse conto ter sido abordada em um livro chamado “Contos gauchescos” (na primeira versão que li desse conto, o cavalo não fugiu de novo, nem tinha nenhuma neve, mas foi morto e enterrado pelo dono que queria testar Negrinho quando ouviu ele comentando com outro escravo que sua santa o ajudou), diz que isso teria acontecido no Sul e a santa que o escravo negro recorreu não foi um orixá, mas Maria, de religião difundida por brancos. A história de um escravo negro que tem que agradecer ao catequismo forçado, pois graças a fé dele em um santo do homem que o oprimiu – inclusive com essa religião – e o matou que salvou e protegeu sua alma? Provavelmente em sua primeira copilação a história foi embranquecida para ter aceitação, o que é uma pena, pois até em uma versão de 2015 não traz uma visão diferente, ou possibilidade dela.

As gravuras são bonitas, mas, como dito acima, o livro não trouxe nada de novo desde a copilação de 1800.

Como comentário pessoal, eu estava em busca de algo que mostrasse mais a cultura negra no Brasil, só que esse livro fracassou como objeto de estudo por mostra apenas aquilo que sabemos, e uma versão com claro traço de opressão. Não recomendaria esse livro, nem para debate.

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