Miley Cyrus não inventou o twerk

Como uma cultura idiotizadora, aquela que mobiliza adolescentes a realmente acreditarem que seus ídolos midiáticos – que nem os conhecem – os amam; que se revoltam nomeando “traidor” quem “ousa abandona-los” seguindo uma carreira séria, isto é, deixar de trabalhar para uma empresa que ganha mais vendendo “personalidade” do que música. Uma cultura que vende pessoas, que passa por cima de outras culturas, que transforma algo sério em lixo, que segrega por etnia; que possui símbolos que ficam bem na classe dominante, mas horrível em quem os criou.

Como uma cultura idiotizadora chegou ao nível de conquistar pessoas que compram qualquer merda que ela produz, não se interessam por música quando colecionam CDs, mas pelo visual(aparência e personalidade do ícone vendida pela empresa); querem quem produz, não o que foi produzido. O consumidor nem se toca que aquilo é uma imagem de marketing, que aquela pessoa provavelmente é o oposto do personagem que vende. Ele coleciona os CDs porque o videoclipe de promoção era bonito, não importa se tem autotunes o suficiente pra transforma-los Vocaloids, vai a shows com um puta playback e cenas de arte circense e de dança nas quais o ídolo sequer mexe um dedo – pagou profissionais para fazê-lo dos quais sequer serão lembrados ao entreter uma apresentação de uma pessoa que não fez nada mas é o motivo de os fãs estarem lá -, lê roteiros na cara dura pra fazer entrevistas ou participar de algum ‘reality”. Mas o fã está lá, disfarçado de um apreciador da música – apesar de nem saber o que está escutando a ponto de nem notar que é tudo igual ou comprarem qualquer merda que fulano produz porque é do fulano, e ninguém fale mal do trabalho dele! Adorar ídolos midiáticos é como religião, irrefutável e não aberto a opiniões, por isso imutável e cego -, pagando por algo que foge da proposta(era fazer música, mas as pessoas pagam pelo personagem vendido mesmo) que sequer é real. Uma cultura tão idiotizadora que as pessoas nem ao menos se perguntam se é real.

Há um tempo que a entrevista com a Azelia Banks gerou polêmica até entre seus próprios fãs brasileiros(tinha que ser). Fãs que, aliás, como todo hu3 br feat zoeiro: quer ter opinião, mas não se informar sobre o assunto que opina, mesmo com o google ali do ladinho. Sua abordagem foi sobre apropriação cultural utilizando Iggy Azalea e Miley Cyrus como alvo de crítica.

Ela iniciou o discurso falando que em seu país ela não pode praticar a própria cultura, mas quando brancas como Iggy a praticam, são considerada excelentes. O entrevistador então explica que em uma cultura capitalista, eles não se importam com o que se vende, então por ser um país de maioria branco, eles gostam de comprar aquilo que se veem inseridos. Aí ela diz “Certo, então não ponha Iggy na categoria hip-hop, põe ela na categoria pop, na mesma caixa que Miley Cyrus”. Azelia Banks sabe que o hip-hop tem um histórico sociocultural por trás, o peso da expressão como movimento da cultura negra e o impacto de expressá-lo na sociedade por ser alguém inserido nessa cultura. Ela sabe que, ao contrário dessas brancas, não se trata de fazer rap e balançar a bunda(já que nelas para a mídia, se resumiu a isso, deixa de ser símbolo e vira “lixo” – termo usado quando a cultura é apropriada e perde seu valor), Azelia Banks só deseja que sua cultura não seja embranquecida mais uma vez, como foi com o Jazz, o Blues e o Rock. O hip-hop, que até hoje é marginalizado, torna cantores brancos como Iggy Azalea e Eminem famosos por serem brancos, sendo Iggy mais famosa que Azelia, Dominique e muitas outras cantoras negras desconhecidas por não serem “novidade”, isso é, “não ser aquilo que eu quero ver” em um país de maioria branca, tendo Azelia Banks e essas negras consideradas vadias loucas quando expressam suas culturas fazendo um trabalho – se sensual – semelhante a da branca novidade. A branca é novidade, a negra é vadia e desconhecida em um movimento que a pertence.

Mais o que me chamou atenção mesmo foi sua crítica a Miley Cyrus. A fofíssima Hana Montana da infância de uma geração de crianças que agora as acompanha adolescentes como uma jovem adulta hipersexualizada que em sua estreia nesse novo personagem, para polemizar, faz um passo de dança marginalizado por ser de “negras vulgares do gueto”, popularizado nos anos 90 no street-jazz e hip-hop, tradicional de Nova Orleans. O twerk.

Engraçado esse negócio de apropriação. Até hoje é possível ler na internet gente defendendo o twerk da comparação com os passos do funk brasileiro porque “foi a Miley que criou”. Sim, o twerk não é de puta, porque foi a Miley que criou. Não sei o que me choca mais, o complexo de vira-lata ao ser legal nos gringos, mas não nos brasileiros, ou dizer que aquele passo de dança do qual meninas negras eram taxadas de putas nos vídeos da internet, não é de puta quando uma branca a dança sendo intitulada até mesmo como criadora desse estilo. Mais uma cultura passada para trás, mais um povo marginalizado por criar algo, tudo pelo embranquecimento em prol à cultura dominante no cenário global.

Um sistema que vende pessoas vai se importar de passar por cima de conquistas de povos, de ofendê-los, ou de transformar em acessório, lixo, tudo que uma cultura tradicional criou com esforço, manteve e passou a frente com o sangue de mortes em prol de aquilo existir como uma expressão de existência daquele grupo? Claro que não. O público eurocêntrico apenas quer consumir e, claro, com os próprios inseridos, porque cultura negra praticada por negros é ruim, vulgar e mal influenciadora, já praticada por brancos é inovador, diferente e legal. E salve Miley Cyrus, criadora do twerk. Só que não.

Anúncios

Um pensamento sobre “Miley Cyrus não inventou o twerk

  1. Pingback: Branco dominador | Dois dólares outra vez

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s