Fundo do poço por uma nova identidade

De um dia para o outro, me internei. A primeira sessão de quimioterapia ia ser póstumo. Estava acostumada a dormir com a minha mãe, naquela noite dormi sozinha, na UTI. Não estava acreditando que uma doença tão grave alastrava o meu corpo, eu não estava assim tão mal. Um corpo que não está acostumado sequer com dipirona, agora estaria sendo bombardeado por quimioterapias muito agressivas. Era uma doença se sugando de um lado e o tratamento me sugando de outro. Como foi o primeiro contato, chorei pela dor, enjoos, e todos os desconfortos que aquilo me causava. Minha imunidade estava tão baixa que tomei banho no leito. Meu corpo sequer era tocado por mim. Ia dormir novamente sozinha, chorei. O primeiro comentário acerca daquilo foi “Nossa, você está sensível demais”. Minha vida virou em um único dia, mas o direito de lamentar me foi tirado. Todos diziam que eu não era a única, que aquilo acontecia com todos. Nenhum deles tinham passado por isso, mas falavam coisas pra mim como se tivessem muita experiência. Eles exigiam forças, apesar de ser tudo tão novo. Eu teria que me acostumar com aquela rotina no ritmo deles, não no meu.

Depois de ver a morte pela segunda vez com uma infecção grave que consome os leucêmicos mais rápido que a própria leucemia aguda, chorei com a dor dos antibióticos venosos. Meu corpo estava tão sensível devido a quimioterapia, que minhas unhas estavam pretas. Eu simplesmente não tinha mais canais decentes. O enfermeiro, na cabeça dele, tentando me ajudar disse que nem crianças de dois anos com quem ele trabalhou eram tão frescas quanto eu. Ele nunca tinha passado por isso, mas sentia-se livre para opinar se meu sofrimento era válido ou não.

Essas pessoas não são de hoje. Elas são as mesmas pessoas que me perseguiram quando eu estava saudável. Que me aconselhavam a alisar um black tão lindo que só recuperei dez anos depois de cessão a essas pressões. Que me sugeriam odiar o meu corpo por não ser conforme cobravam. E odiei, por muito tempo. Tentaram invalidar minhas lutas a cerca da minha raça, chamando-me de “vitimista” apesar de serem todos o meu oposto, os privilegiados que jamais entenderiam a minha dor pelo simples fato de não serem os atacados, mas os que atacam. Tentar destruir uma ideologia que me salvou, não só a mim, mas a muitas mulheres. Era o que eu acreditava, nunca tentei converter ninguém como uma religião, era uma luta minha, mas se sentiam na responsabilidade de se mostrarem agredidos. Agredidos porque eu não me destruía mais como eles queriam.

Ceder a tudo isso que provavelmente me adoeceu. Que me fez desejar a morte, e agora reforçam para que eu a espante da mesma forma que me fizeram querê-la. Pois eu digo, não escuto mais ninguém. Não foi agora que eu me libertei. A partir do momento que a medicina e os religiosos disseram “você está viva”, eu disse “eu sei”. E-U sei. EU SEI!!!

E toda vez que alguém quiser me lembrar de algo, seja tentando me reprimir ou oprimir com comentários gratuitos ou opiniões que ninguém pediu, me lembrarei sim. Lembrarei que estou viva, antes de que qualquer um tente me lembrar minhas condições, se foi ou será, eu lembrarei do presente. O presente que apenas eu conheço, que apenas eu sei.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s