Cabeça cheia

Pensei em escrever sobre feridas compulsórias que cicatrizaram sem sequer abrir. Unguentos, analgésicos, remédios seja de cura ou tratamentos que durassem uma vida. Mas finalmente decidi mudar o repertório.

Uma vez citei em uma história que criei para uma amiga em que o maior problema da personagem era a paixão por presentificar o passado. O que ela não sabia é que esses ataques não eram para ela, mas para mim. É ela quem estuda o que aconteceu, como o ser humano se adaptou do início aos dia de hoje. Ela com certeza vive lembranças, lamenta arrependimentos e olha para trás a fim de enxergar o que está a frente. Mas tudo parece tão positivo para ela que seu pretérito não é um buraco, mas um degrau.

Eu até me inspiro, mas dizer que sigo seus passos seria uma mentira para mim mesma. Enquanto seu método é uma pílula medicinal para mantê-la firme para mais um dia, a mesma atitude me adoece a cada dia. Talvez o efeito da mesma droga seja oposto pela forma que utilizamos. Ela deseja sua melhora e eu inconscientemente me agarro à doença porque no fundo sei que é mais fácil acabar com tudo do que lutar por uma sustentação sólida, que me segure até a queda vir apenas de um falecimento, isso é, morte por causa natural.

Foi focar tanto sobre o que aconteceu ou comparar o que acontece pelo que eu vivi, até mesmo temer o que vai acontecer porque certas coisas se foram que a doença se alastrou de tal modo a ponto de eu precisar de uma real cura.

É um tanto complexo falar de unguento sem citar as feridas. Se levar em conta que as feridas são metáforas ao pretérito, unguento o presente e a cicatrização um futuro – em que futuro é o que se deseja alcançar, não um presente que nunca chega – é mais fácil relacionar ao que quero chegar.

Os tratamentos são dolorosos, seja tomar injeção, ingerur uma pílula com efeitos colaterais dos leves como gastrite ao coma induzido, mas me tratando – algo que sempre temi fazê-lo, por isso preferia me apegar a doença, achando o caminho mais fácil -, mesmo sentindo na pele um remédio tão corrosivo que divide as chances de salvar meio a meio com as de matar, não chegou nem perto do que a doença me causou.

Foi tanto tempo guardando pequenas coisas, expulsando grandes bolas de neve incompletas, temendo o que não tinha que temer. Pressão de si sobre si, ansiar por uma melhora na ansiedade. Cheguei a me confundir com nada, eram grandes alardes sobre a dúvida de ingerir muita informação devorando livros, escutando o que todos tinham a dizer ou se escrevia histórias tentando expulsar o que estava preso, toda a informação consumida na minha reprodução. Me faltou orientação.

Não quero acreditar que meus passos dependam de uma pessoa, mas não posso mais temer ser um futuro estorvo para alguém. Eu aceito que preciso de ajuda, não posso mais negar que não consigo fazer tudo sozinha, carregar o que eu estava carregando e tentar consertar erros que não precisam de conserto – nem podem -, mas aprendizagem em cima deles sem cobranças lamentáveis.

O tratamento funciona porque as feridas não me incomodarão mais. Estou aos poucos me sentindo a vontade para falar sobre isso; ainda me sinto incompleta, não consigo dizer nada de forma direta por falta de preparação, lembranças e pensamentos ainda martelam, porque como eu disse, as feridas não me incomodarão, mas ainda incomodam.

Eu espero que após a quimioterapia, não somente meu corpo se renove, mas a minha forma de lidar com o emocional. Até mesmo para nada disso se desencadear de novo. Elas tinham se cicatrizado sem abrir, agora ela estão abertas sem nenhum ponto para remendar. Os órgãos externos podem se fortalecer através do esforço, mas os internos não se fortalecem, não importa o quanto treina. O mesmo vai com a mente. Se quebra um osso, o trauma pode ser revertido com gesso ou repouso; quando se quebra uma mente é irreversível. O emocional é mais sensível do que se pensa, aprendi sobre unguentos da pior forma.

Espero que quem se nega a pedir ajuda na área, mude de atitude como eu mudei. Aprender pela dor é pior do que se pensa. É tão importante enfrentar as coisas, evitar o conflito muitas vezes é a resposta inadequada. O caos também é importante, ele trabalha ao lado da harmonia, é assim que o equilíbrio universal funciona, os opostos são importantes.

Tudo que eu quero é viver o presente, planejar o futuro e ao recordar o passado, que não me doa mais. Quero olhar para trás e não sentir mais nada. Lembrar sem viver tudo de novo. Só assim vou saber que cicatrizou.

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