Cobras e piercings

cobras e piercings

A juventude exige a construção de uma identidade, principalmente na ausência de “problemas” em um mundo global. Por isso, categorias rotuladas são criadas por jovens que desejam se encaixar nesses sistemas de regras construídos para que se siga à risca em busca de suas liberdades. Lui é uma recém-saída da adolescência, logo uma mente em transição tentando se encontrar frente a tantas opções. O mundo sadomasoquista a interessa, mas seus moldes para ingressa-lo são lentos, afinal não é das rebeldias mais bem vistas socialmente. Isso de fato a excita, mas sem perder o “bom senso” imposto pela vida adulta.

Frequentando boates sádicas, Lui se constrói aos poucos, inicia pequenas body modification como alargamento das orelhas, alguns piercings e por ela pararia por aí, até conhecer a língua bifurcada de Ama. Encantada com o adolescente peculiar que Ama mostra ser, Lui passa a praticamente morar em seu apartamento quando resolvem assumir um relacionamento sadomasoquista. Desejando fazer uma língua bifurcada, Lui é encorajada por Ama quando ele a explica as fases de dor que se necessita passar. Ama leva Lui ao seu tatuador, o mesmo que lhe fez a body modification, ela conhece Shiba, o skinhead sádico que está por trás de toda aquela decoração pervertida e grotesca na casa de tatuagens, e das modificações corporais de Ama, dando início ao romance dentro desse triangulo amoroso. Conforme Lui passa pela experiência de sentir sua língua se dividindo passo a passo, também se sente dividida nesse relacionamento triangular quase assumindo uma vida dupla, até mesmo com personalidades diferenciadas em tempos diversos.

Tardiamente também faz sessões de tatuagem moldando a forma de uma grande cobra kirin(um dragão) em suas costas. A cada encontro, mais visível fica o desenho, e mais claro também de quem Lui é para Lui. Ao finalizar a tatuagem, Lui implora pela omissão dos olhos, ficando a imagem de um dragão cego. Um sério acontecimento muda sua vida, a levando direto à depressão e acompanhamento de um mistério. No pico das investigações internas e pessoais acerca e a volta de si, por uma série de ocorrências ligadas a Ama, Lui pensa em desistir da bifurcação, mas em um impulso, a corta direto, finalizando um rito de passagem importante, mas ainda dependente de outro. Ao finalmente se esclarecer do que acontecia, ao desvendar aquele torturante mistério que a levou até mesmo ao alcoolismo , pede para Shiba tatuar os olhos da cobra. A busca de Lui por si mesma é a expressão de uma mente que se modifica junto a um corpo.

Comentário:

Sadomasoquismo pela primeira vez é abordado com seriedade, de todas as obras relacionadas ao tema que já li. Ao contrário do que pensamos, dos estereótipos exagerados(seja propositalmente ou não), a relação sadomasoquista não se trata exatamente de correntes, chicotes, roupas de couro e a fins. Isso tudo é um lado performático do sexo que não está presente em todas as relações; na verdade, existem casais que odeiam todas essas fantasias ou que nunca fizeram. De qualquer forma, esses estereótipos estão longe de ser frequentes nas relações sexuais. Primeira descrição nada tímida de sexo da rotina sexual entre Ama e Lui, ela relata o sexo de forma totalmente repulsiva para quem não está acostumado com a ideia de dominação. E tudo que ela comenta é que Ama sobe em cima dela e a “usa” enquanto ela fica naturalmente paralisada. Ela é tratada como boneca inflável, ele sente prazer em ser egoísta no sexo, em não se preocupar se ela vai gozar ou não, isso que traz o orgasmo de ambos. Tratamento de dominação comum, objetificar o outro; vê-se que não foi utilizada algemas ou cordas nisso. Lui também passa a ser ameaçada de morte pelo namorado e pelo amante, isso a assusta e igualmente a excita, viver nessa vida “perigosamente”, se autodestruindo como ela faz. Uma violência doméstica mais que consentida, é desejada.

Apesar de abordar o diletantismo, para quem já leu outros textos, esse tema que muito me interessa já que é visível a necessidade de autodestruição dos jovens por não terem pelo que lutar; a transição na adolescência e outros temas underground, achei esse livro um saco. Ele é curto(172 páginas), mas é tão cansativo de tão esticado. Tipo, a menina relata o que sente a cerca dos mistérios que frequenta e modificações que passa, mas chega capítulos que tudo vira uma encheção de linguiça. A trama em si é interessante(apesar de o final não ser nada tragável, sabe quando você não sabe explicar se gostou ou não?), mas a personalidade da guria é estilo Mediadora, Bella do Crepúsculo numa versão punk. Ela não é mais uma adolescente apesar dos traços infantis, mas é pela forma que ela lhe dá com os problemas do triângulo amoroso.