A cor da ternura

– Se a gente pelo menos pudesse estudar os filhos…

Senti uma pena tão grande do meu velho, que nem pensei para perguntar:

– Pai, o que a mulher pode estudar?

– Pode ser costureira, professora…[…]

– Vou ser professora. – Falei num sopro.

Uma obra autobiográfica de Geni Guimarães, trilha da infância à vida adulta em pequenos passos, poucas palavras, fase a fase transbordadas de experiências em um livro infantil de 100 páginas. Mesmo que tão pequena, a abordagem é riquíssima; tanto conteúdo e reflexões de uma criança sobre si mesma, seu olhar acerca da família, amigos, escola, problemas sociais, o mundo com ela e para ela.

Geni, uma menina negra de família pobre, amante dos animais, de poesia e das histórias contadas por uma negra anciã sobre escravatura, carrega em si a vontade de modificar a história imposta de seus ancestrais pelo olhar do homem branco. Quem nunca ouviu a história do preto coitadinho que foi libertado por uma moça branca em poucos minutos, que apenas ao riscar um papel livrou anos de sofrimento de um povo? Mesmo que indiretamente, Geni desacredita que tudo realmente tenha acabado ou que seus ancestrais não passaram de seres dignos de pena. Ela defende o heroísmo, a resistência, a proteção de uma cultura perseguida que ainda está presente. Ao mesmo tempo, em momentos de fraqueza, quer negar o fardo de ter a pele escura ou os cabelos crespos, das cobranças sociais indiretas, de ter de se contentar com uma submissão racial ainda existente.

Discurso do patrão do pai de Geni:- Não tenho nada com isso, mas vocês de cor são feitos de ferro. O lugar de vocês é dar duro na lavoura. Além de tudo, estudar filho é besteira. Depois eles se casam e a gente mesmo…”

Resposta do Pai :

– É que eu não estou estudando ela pra mim – disse meu pai. – É pra ela mesmo. […] Ele pode até ser branco. Mas mais orgulhoso do que eu não pode ser nunca. Uma filha professora ele não vai ter.

Seus conflitos externos e consigo, um misto de ações ocorridas e idealizadas, tudo que viveu, experiências que qualquer ser humano passa, ainda que em proporções – sejam ideológicas ou quantitativas – desiguais fez nascer não só uma professora disposta a modificar mesmo que em pequenos passos a história que ficou; esclarecer para uma pequena aluna branca racista que sua cor escura não a impede de encantar as pessoas com seus métodos de ensino, provar aos professores da nova escola que uma menina negra também pode ser professora – com direito a demonstração do diploma de magistério e tudo. Também sente o enorme orgulho de dizer a si mesma e às pessoas ao seu redor “sim, eu sou negra; tanto aos olhos externos quanto nos olhos de dentro'”.

Além de superação e exposição do que é real em relação à raça, desigualdade social e gênero, a história vai além ao transparecer um unânime modelo histórico sobre escravatura positivista nas escolas com ícones calculadamente escolhidos. Princesa Isabel, uma princesa branca de origem portuguesa que liberou os escravos porque era uma santa; esse é o único resumo de toda uma história de abolição que temos? Será que não existem mesmo símbolos de resistência negra? Negros puderam viver felizes para sempre após a “libertação”? Princesa Isabel aboliu realmente alguém? Se sim, foi por que era uma santa? São reflexões que o livro me deixou seguir.

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