As histórias em quadrinho e o desafio das diferenças culturais na literatura infantil

“Então você pretende abordar história em quadrinhos? Acho uma excelente ideia!”

Foi o apoio que minha coordenadora deu enquanto discutíamos o que eu idealizava para o projeto.

Como estudante de Letras Japonês, minha paixão por HQ queima desde criança. Acredito que minha iniciação para a leitura se deve aos quadrinhos, inclusive, foi a obra do Maurício de Souza “Turma da Mônica” que me incentivou à alfabetização; eu realmente tinha inveja da minha irmã mais velha ao vê-la se aventurar nos quadros com belas figuras enquanto eu tentava acompanhar a história apenas visualizando as cenas. Defendo que entre tantas obras literárias, existam riquíssimos trabalhos que provavelmente as crianças não terão acesso na escola, talvez nem na vida cotidiana já que infelizmente existe um preconceito com esta literatura em particular. Uns acreditam que é infantil demais – apesar de existirem quadrinhos adultos aos quilos na banca de jornal -, outros que frases curtas – mesmo que com um contexto dependente de ligações entre todas as frases e imagens – não ajudam a treinar leitura, chegam a equivaler filmes legendado e conversas em chats. Baseando-me nisso, senti a obrigação de apresentar a riqueza deste trabalho no projeto que me inscrevi.

Apesar de a Turma da Mônica ter iniciado a minha vida como leitora, o HQ que mais me marcou foi o mangá japonês Naruto.

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Com um protagonista atrapalhado, socialmente marginalizado; longe de ter as qualidades clichês de um herói, Naruto Uzumaki é um ninja da aldeia da folha que carrega um sonho: quer ser reconhecido e respeitado por todos. Ele se esforça como pessoa, trabalha duro a cada dia, tem coragem e nunca volta atrás da sua palavra; esses são seus pontos fortes. Em contrapartida, não tem nenhum talento como ninja e possui um segredo considerado tabu social que todos sabem, menos ele.

Seu grande rival, mas não um antagonista, seria como protagonista secundário, e melhor amigo Sasuke Uchiha tem muito talento, nasceu em um clã poderoso que ajudou na construção da vila e carrega a herança genética do Sharingan(um jutsu ocular antigo que permite um poder superior em campo de batalha), logo é idolatrado por todos os cidadãos apenas por seu um Uchiha. Todavia, Sasuke possui uma ambição por causa da sua trágica história no passado, está disposto a fazer de tudo por vingança, isso também inclui passar por cima das pessoas que Naruto deseja proteger.

AAtravés das aventuras desses dois ninjas super contrastantes dentro da Equipe 7(formada por mais dois personagens Sakura Haruno e o líder Kakashi Hatake e tardiamente Sai – na saída de Sasuke), a cada capítulo uma nova lição de superação é formulada, reflexões puramente humanas do que é a vida ainda que em um contexto fantástico no mundo Ninja criado por Musashi Kishimoto. Aqui no Brasil, a primeira saga de Naruto(conhecida como Naruto clássico por abordar apenas a infância do jovem) é classificada para 10 anos(na tv aberta), idade adequada para trabalhar no projeto. Então, qual é o problema de trabalhar com essa história? O segredo de Naruto.

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Não muito tarde nos é revelado, ainda no primeiro capítulo do primeiro mangá tudo se esclarece. Uzumaki Naruto carrega em si uma besta, um demônio mitológico japonês chamado “Kyuubi” ou “Raposa de nove caudas” que só lhe foi selado no interior para que ele proteja a vila.

Diferente da nossa cultura ocidental cristã, demônios e anjos possuem uma conceituação diferente no Japão. Para nós ocidentais(culturalmente falando) o mundo está dividido entre “o bem e o mal”, sendo o mal desprezível e o bem única coisa que devemos alcançar; logo demônios são ruins e anjos são bons.

No oriente, essa dualidade também existe, mas em visões diferentes. Para a subcultura taoísta – a utilizada como base da cultura no universo fictício de Kishimoto – o Yin e Yang não são exatamente “bem e mal”, mas todos os opostos como “luz e trevas”, “feminino masculino”, “princípio e fim”, e ambos são puramente necessários para manter o equilíbrio universal.

Neste mundo fantástico, o universo é constituído por uma energia vital que se dividiu em nove Bijus(monstros com caldas), ou seja, são seres que mantém o equilíbrio universal, só receberam o nome “demônio” ou “besta” por serem usadas como armas que ninjas forasteiros inventaram em busca de poder. Em outras palavras, o demônio de Naruto não é o espiritual cristão que conhecemos, não são anjos que desobedeceram a Deus e trabalham para o Diabo, recebe esse título por motivos diferentes; apesar de ambos serem mal nomeados, estão totalmente desvinculados conceitualmente.

O desafio da abordagem é: como apresentar a história sem causar alvoroço entre os pequenos ou maus olhos dos pais? Explicar seria uma boa opção? Por um lado, praticamente ninguém vai ouvir porque explicações em decorrer de histórias quebram o sentimento de aventura, e tirar a atenção ou desinteressar alguém é a ultima coisa que quero fazer. Também tem o fato de talvez não entenderem a explicação, já que até mesmo alguns adultos que acreditam na doutrina não sabem conceituar o que seria um demônio, mas sabe que é ruim porque ouviu na igreja. Explicar antes de começar a história além de causar uma impressão ruim – como já citado – também contribui com spoil, pois eu estaria quebrando um segredo (ainda que revelado no 1° capítulo do mangá). Apesar dos desafios, mostrar culturas difusas as nossas no universo infantil contribui no combate a intolerância e espanta a ignorância com o conhecimento. Sem contar que Naruto é uma obra linda e revolucionária no universo infantil ocidental puramente Disney, já que raras são as vezes que o herói nos concedido não é o talentoso da história, mas o fracassado.

Aiko Hime

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A cor da ternura

– Se a gente pelo menos pudesse estudar os filhos…

Senti uma pena tão grande do meu velho, que nem pensei para perguntar:

– Pai, o que a mulher pode estudar?

– Pode ser costureira, professora…[…]

– Vou ser professora. – Falei num sopro.

Uma obra autobiográfica de Geni Guimarães, trilha da infância à vida adulta em pequenos passos, poucas palavras, fase a fase transbordadas de experiências em um livro infantil de 100 páginas. Mesmo que tão pequena, a abordagem é riquíssima; tanto conteúdo e reflexões de uma criança sobre si mesma, seu olhar acerca da família, amigos, escola, problemas sociais, o mundo com ela e para ela.

Geni, uma menina negra de família pobre, amante dos animais, de poesia e das histórias contadas por uma negra anciã sobre escravatura, carrega em si a vontade de modificar a história imposta de seus ancestrais pelo olhar do homem branco. Quem nunca ouviu a história do preto coitadinho que foi libertado por uma moça branca em poucos minutos, que apenas ao riscar um papel livrou anos de sofrimento de um povo? Mesmo que indiretamente, Geni desacredita que tudo realmente tenha acabado ou que seus ancestrais não passaram de seres dignos de pena. Ela defende o heroísmo, a resistência, a proteção de uma cultura perseguida que ainda está presente. Ao mesmo tempo, em momentos de fraqueza, quer negar o fardo de ter a pele escura ou os cabelos crespos, das cobranças sociais indiretas, de ter de se contentar com uma submissão racial ainda existente.

Discurso do patrão do pai de Geni:- Não tenho nada com isso, mas vocês de cor são feitos de ferro. O lugar de vocês é dar duro na lavoura. Além de tudo, estudar filho é besteira. Depois eles se casam e a gente mesmo…”

Resposta do Pai :

– É que eu não estou estudando ela pra mim – disse meu pai. – É pra ela mesmo. […] Ele pode até ser branco. Mas mais orgulhoso do que eu não pode ser nunca. Uma filha professora ele não vai ter.

Seus conflitos externos e consigo, um misto de ações ocorridas e idealizadas, tudo que viveu, experiências que qualquer ser humano passa, ainda que em proporções – sejam ideológicas ou quantitativas – desiguais fez nascer não só uma professora disposta a modificar mesmo que em pequenos passos a história que ficou; esclarecer para uma pequena aluna branca racista que sua cor escura não a impede de encantar as pessoas com seus métodos de ensino, provar aos professores da nova escola que uma menina negra também pode ser professora – com direito a demonstração do diploma de magistério e tudo. Também sente o enorme orgulho de dizer a si mesma e às pessoas ao seu redor “sim, eu sou negra; tanto aos olhos externos quanto nos olhos de dentro'”.

Além de superação e exposição do que é real em relação à raça, desigualdade social e gênero, a história vai além ao transparecer um unânime modelo histórico sobre escravatura positivista nas escolas com ícones calculadamente escolhidos. Princesa Isabel, uma princesa branca de origem portuguesa que liberou os escravos porque era uma santa; esse é o único resumo de toda uma história de abolição que temos? Será que não existem mesmo símbolos de resistência negra? Negros puderam viver felizes para sempre após a “libertação”? Princesa Isabel aboliu realmente alguém? Se sim, foi por que era uma santa? São reflexões que o livro me deixou seguir.